Informações sobre possível aparição de pai e filho em área rural do interior paulista estão sendo verificadas pela Polícia Civil (Foto Redes Sociais)
Uma informação que circula desde o último fim de semana deu novo fôlego às discussões sobre o caso Buscariollo. Pai e filho, considerados principais suspeitos pela execução de quatro homens em Icaraíma (PR), teriam sido vistos em um pesque-pague no interior de São Paulo.
Diante da repercussão, a reportagem do OBemdito procurou, nesta terça-feira (03), o delegado Thiago Andrade Inácio, responsável pelo inquérito na Delegacia da Polícia Civil de Icaraíma.
Ele afirmou que a informação chegou ao seu conhecimento e que ele determinou a verificação imediata da denúncia. Contudo, até o momento, não houve confirmação oficial da suposta aparição.
O delegado acrescentou que detalhes como o local exato, a data precisa e outras circunstâncias não foram confirmados e não serão divulgados neste momento, justamente para não prejudicar o andamento das investigações.
O que causa estranheza, porém, é o fato de que, mesmo diante do suposto reconhecimento não tenha havido denúncia formal imediata às autoridades.
A ausência de comunicação oficial no momento em que teriam sido identificados levanta dúvidas e reforça a necessidade de cautela na apuração, já que, até agora, a informação não foi confirmada pela Polícia Civil.
Leia também: Caso Icaraíma: quatro homicídios completam seis meses sem presos e com suspeitos foragidos
Nos dias que sucederam 5 de agosto de 2025, enquanto as primeiras notícias sobre o desaparecimento de quatro homens chegavam à redação do OBemdito, o cenário ainda era de incertezas. O que parecia inicialmente um desacordo comercial acabou se revelando um dos crimes mais brutais e complexos já registrados no Paraná.
A data marca o último dia em que Alencar Gonçalves de Souza Giron, de 36 anos, Diego Henrique Affonso, de 39, Rafael Juliano Marascalchi, de 43, e Robishley Hirnani de Oliveira, de 53 anos, foram vistos com vida, em Icaraíma, no Noroeste do Estado.
Desde então, a investigação revelou indícios de execução múltipla, ocultação de cadáveres, uso de armas de calibres restritos, estruturas subterrâneas utilizadas como bunker e possíveis conexões com o crime organizado em área rural.
As investigações da Polícia Civil apontam que o crime teve origem em um conflito financeiro envolvendo um sítio de cinco alqueires, avaliado em aproximadamente R$ 750 mil, localizado no distrito de Vila Rica do Ivaí, em Icaraíma.
Diferentemente do que se afirmou inicialmente, Alencar não vendeu, mas comprou a propriedade de Antônio Buscariollo, de 66 anos, pagando R$ 255 mil à vista. O restante seria quitado por meio de financiamento bancário, que acabou negado, levando ao distrato do negócio.
O acordo previa a devolução do valor pago em dez parcelas de R$ 25 mil, mediante emissão de notas promissórias em nome de Carlos Eduardo Cândido Buscariollo, outro filho de Antônio, residente em São Paulo. Com o atraso nos pagamentos, Alencar decidiu cobrar a dívida.
Para realizar a cobrança, Alencar contratou Diego Henrique Affonso, que levou Rafael Marascalchi e Robishley de Oliveira, ambos de São José do Rio Preto (SP). Segundo a investigação, Rafael viajou contra a vontade da esposa e aguardava o nascimento da segunda neta.
O grupo chegou a Icaraíma em 4 de agosto e fez um primeiro contato com os Buscariollo. No dia seguinte, retornou à zona rural para nova tentativa de negociação, logo após serem filmados tomando café em uma panificadora da cidade. As imagens se tornaram um dos últimos registros das vítimas com vida.
Laudos divulgados em 10 de dezembro de 2025 indicam que os quatro homens foram executados por volta das 12h30 de 5 de agosto, logo após chegarem à propriedade rural.
As análises descartaram tortura ou cárcere privado. As vítimas foram mortas dentro ou ao lado da caminhonete Fiat Toro branca, placas FTV-9H79, ano 2019, atingidas por disparos efetuados com pelo menos cinco armas diferentes, a partir de três posições distintas.
Foram identificadas munições dos calibres .223, 5.56, .45, .40, calibre 12 e 9mm, incluindo armamento de uso restrito. O padrão do ataque indica a participação de pelo menos cinco pessoas, embora apenas dois suspeitos tenham mandados de prisão expedidos.
A caminhonete foi localizada apenas em 12 de setembro, enterrada em uma vala profunda em área de mata, dentro de um bunker, que é uma estrutura frequentemente utilizada para ocultação de drogas, armas e veículos.
A retirada ocorreu na madrugada do dia 13, após mais de dez horas de trabalho com apoio de maquinário da prefeitura e guincho. O veículo apresentava marcas de tiros, vestígios de sangue e objetos pessoais das vítimas, como um boné de Diego. Nenhum corpo foi encontrado no local.
Somente na noite de 18 de setembro, quase 45 dias após o crime, os corpos foram encontrados na Fazenda Jundiá, a cerca de 500 metros do ponto onde o veículo estava enterrado.
Segundo o delegado Thiago Andrade, plantas haviam sido colocadas recentemente para camuflar o solo remexido. Os corpos estavam em avançado estado de decomposição.
Durante as buscas, a Polícia Civil identificou 22 estruturas subterrâneas na fazenda, sendo cinco bunkers de alvenaria e 17 esconderijos improvisados.
As estruturas foram catalogadas com apoio da Força Nacional e da Polícia Militar Ambiental. A área foi multada em R$ 7,5 milhões por danos ambientais em 278 hectares e acabou embargada.
O cenário levou o Governo do Estado a incluir Icaraíma entre as cidades que receberão bases operacionais do Batalhão de Polícia de Fronteira, unidade especializada no combate a crimes transnacionais. O cronograma de implantação não foi divulgado.
Antônio Buscariollo e Paulo Ricardo Costa Buscariollo, de 22 anos, seguem foragidos desde 8 de agosto, quando tiveram a prisão preventiva decretada.
O novo chefe da 7ª Subdivisão Policial de Umuarama, delegado Izaias Cordeiro de Lima, afirmou que não haverá mudanças na condução do inquérito, que permanece sob responsabilidade de Thiago Andrade.
“A investigação está sob sigilo. Seguimos buscando elementos probatórios que contenham provas”, declarou.
A Polícia Civil também apura a conduta de dois agentes públicos suspeitos de manter contato com investigados após o crime. Até o momento, não há indícios de participação direta nas execuções.
Familiares de Alencar afirmam que sempre confiaram no trabalho da Polícia Civil e que a localização do corpo trouxe dignidade à despedida, embora nenhuma resposta repare a perda.
A advogada Josiane Monteiro, que representa familiares das demais vítimas, informou que divulgaria uma nota sobre os seis meses do crime.
No entanto, até o fechamento da reportagem sobre os seis meses do caso, o posicionamento não havia sido encaminhado. As famílias reiteram o pedido por Justiça e cobram o cumprimento dos mandados de prisão.
Icaraíma ainda carrega as marcas de um crime que expôs disputas por terra, estruturas clandestinas e indícios de atuação do crime organizado.
Enquanto novas informações surgem, como a suposta aparição dos investigados em São Paulo, a polícia mantém cautela e reforça que qualquer dado precisa ser confirmado antes de ser tratado como fato.
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