1954: Panorâmica aérea nostálgica de Umuarama, um ano antes da fundação oficial da cidade, que aconteceu na manhã de 26 de junho de 1955, um dia gelado de inverno... - Foto: Acervo de Italo Fábio Casciola
Esta edição é especial, pois os leitores terão a oportunidade de conhecer e ler páginas hiper especiais da História de Umuarama… E faço isso com a reprodução das três páginas de um documento que, penso eu, trata-se de uma pepita de ouro histórica para admirar com especial atenção: é a Ata de Fundação de Umuarama. Documento lavrado na manhã de domingo 26 de junho de 1955.
É a certidão de nascimento da Capital da Amizade, definição que considero a mais simples, objetiva e correta para o registro oficial da criação desta cidade.
Ao percorrer os olhos de cima a baixo, passeando por cada centímetro dessas folhas amarelecidas pelo desgaste de mais de meio século, açoitadas pelo passar de milhares de dias contados um a um pela ampulheta do tempo, o velho relógio de areia a quem ninguém escapa, observamos perfilados os nomes daqueles que verdadeiramente desbravaram este chão num passado já distante para fincar no meio da outrora mata virgem e selvagem uma das mais promissoras cidades do território paranista.
São 109 pessoas, entre homens e mulheres, testemunhas oculares desse momento histórico maior, a quem não se deposita nenhuma dúvida de sua condição de desbravadores. Sobretudo, no mais amplo significado da palavra dedicada aos primeiros e autênticos exploradores de um mundo desconhecido. Bem como, da infinita homenagem que se presta com merecido reconhecimento a quem com trabalho e coragem gravou a ferro e fogo a página inicial de uma bela História, transformando sonhos e esperanças num berço para as gerações que nasceram e continuarão nascendo no passar dos tempos posteriores.
Deixaram o exemplo do labor que constrói, seguidos pelos milhares que chegaram depois ou aqui nasceram. Mas foram esses, que assinaram essa “certidão de nascimento”, representando tantos outros anônimos que naquele dia de inverno de 1955 também estavam aqui, mas que não assinaram o documento por um motivo ou outro, os verdadeiros pioneiros, os que acenderam a chama que até hoje vem iluminando os ideais do bem servir, construir e multiplicar nesta generosa e abençoada “Capital da Amizade”. É a eles que para todo o sempre devemos render as preces de gratidão e reconhecimento.
Em 1970, este repórter pediu a Rubens Mendes Mesquita, na época gerente da Companhia Melhoramentos Norte do Paraná em Umuarama, uma cópia da ata de fundação da cidade. Ele não a tinha naquele momento, mas prometeu consegui-la junto à administração central da colonizadora, em São Paulo, onde esses documentos estavam guardados em cofre. Dias depois, recebi as fotocópias em envelope lacrado e timbrado da CMNP, com um cartão assinado pelo mais alto executivo na hierarquia da empresa: Dr. Hermann de Moraes Barros.
Os anos transcorreram em disparada. Em 1975, precisamente na data magna da fundação de Umuarama, 26 de junho, aportava aqui o lendário diretor gerente da colonizadora. Naquela data – ao lado do também colonizador Raimundo Durães, amigo e velho companheiro de jornadas na colonização de várias áreas no Paraná – ele receberia o título de Cidadania Honorária da cidade que fundou.
Fui entrevistá-lo na bela mansão ali na esquina das avenidas Maringá com Apucarana, a residência oficial da gerência local da CMNP. Cabelos e bigodes brancos, galante e de educação refinada bem ao estilo europeu. Ele me recebeu festivamente: “Gostou do presente?”, foi logo perguntando, referindo-se às cópias da Ata de Fundação que anos antes havia me presenteado via correio.
“Guarde-o a sete chaves porque é o começo de tudo”. A conversa rolou durante uma hora, enquanto ele saboreava o café da manhã. Pausadamente, com sua inconfundível voz grave e forte, recordou detalhadamente aquele primeiro dia, com minúcias que anotei palavra por palavra.
“Fizemos uma solenidade meio improvisada, na varanda do escritório da colonizadora para nos proteger do sol forte que castigava aquela manhã, que começou fria, ameaçando gear, mas depois fez se um calor sufocante. Coube a mim discursar, como já o havia feito momentos antes na inauguração do aeroporto, falando oficialmente em nome da diretoria. Como era um dia de muita ansiedade, tanto para nós como para quem nos acompanhava naqueles instantes solenes, fui econômico mas determinado na escolha das palavras. Resumindo ao máximo nossa satisfação em entregar a nova cidade, abrindo um novo horizonte no Norte Novíssimo do Paraná”.
E continuou rememorando o histórico momento. “Me ouvindo estavam os companheiros de diretoria Gastão de Mesquita Filho (seu cunhado e diretor superintendente da CMNP) e Gastão de Mesquita Neto. Eles vieram conosco de São Paulo especialmente para o ato da fundação. Além de comerciantes, empreendedores que haviam comprado terras da Companhia, e funcionários do escritório e operários da nossa empresa”.
O relato segue: “Ah, estava também um frei capuchinho, mas agora não recordo seu nome…” (Socorri o entrevistado, dizendo que era frei Estevão Maria. “Ele mesmo!”, exclamou, emendando: “Minha memória já não é tão jovem quanto a sua!”). Então, frei Estevão procedeu a benção e depois seguimos até o terreno onde tempos depois seria construída a primeira igreja. Lá foi celebrada por ele a primeira missa de fundação”.
“Como a varanda era estreita, a maior parte das pessoas agrupou-se na rua de terra em frente ao escritório, de onde assistiu o desenrolar da solenidade. Depois da minha fala é que o frei Estevão abençoou o ato solene. Em seguida, todos formaram uma fila que passava por uma pequena mesinha de madeira colocada ali naquela varanda para que assinassem a ata testemunhando a fundação”.
Hermann foi buscar no fundo da memória mais detalhes daquele dia festivo. “Ninguém escondia a alegria de participar daquele momento. Formou-se um burburinho, todos estavam agitados, alguns soltaram rojões e deram gritos comemorando e augurando um destino promissor para a cidade que nascia…”.
Depois da conversa com este repórter, um grupo de assessores e políticos chegaram apressados para levá-lo à Câmara Municipal. No local ele seria homenageado com a mais alta condecoração do município. Lá, com sua elegância e impressionante oratória, construiu um clima tão forte de comoção ao narrar passagens antigas da epopeia da colonização. Isso fez com que a plateia o interrompesse várias vezes com calorosas salvas de palmas.
Deixaram seus nomes perpetuados na Ata de Fundação de Umuarama os pioneiros:
GASTÃO DE MESQUITA FILHO + FREI ESTEVÃO MARIA + JOSÉ VIEIRA + …FURTADO + SÉRGIO CARDOSO DE ALMEIDA + ESTANISLAU CENOVIAK + EDUARDO RAMO + MARIO CABRAL CONTINHOS + GASTÃO MESQUITA NETO + FLÁVIO CERAVOLO + AUGUSTO KLOSTER + JOSÉ L. SOARES + JAYME TELLES DE ALMEIDA + ANIBAL LOPES + ANTONIO DE RAIMO + VICENTE JOAQUIM DA SILVA + T. MANFRINATO + LUIZ FAGUNDES + ESTEVÃO IZIDORO URIO + MANOEL ALVES DIORES + DELVIRA SOUZA BANDEIRA + APARECIDA AZEVEDO DA ROCHA + WALDEMAR GOMES DOS SANTOS + ANIBAL B. DA ROCHA + TEODORO HERRERO + FRANCISCO FREITAS + GERALDO F… + NICODEMOS AROZIO + JOÃO ALVES DE SOUZA + RUBENS MENDES MESQUITA + DOMINGOS TORRES + MOISÉS FERNANDES VARGAS + ARGEMIRO GOMES COSTA + MÁRIO DE OLIVEIRA + DURVAL SEIFERT + ISA MESQUITA + HELENA MORAES BARROS + AGAR RIBEIRO MESQUITA + DAVID PAULO MACHADO + F… GALLEGO CARMONGE + CLEMENTE FREITAS + PAULO RIBEIRO LIMA + HERMANN DE MORAES BARROS + MANOEL RODRIGUES DE SOUZA + LAÍS PRINCE COSTA MESQUITA + WILSON FERREIRA VAULA + ALFREDO OSWALDO HALMEMAN + CECÍLIA MENDES MESQUITA.
Resumindo: durante mais de trinta anos preservei a Ata de Fundação como uma pedra preciosa rara. E o é! (ITALO FÁBIO CASCIOLA, Especial para OBEMDITO)
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