Ítalo Fabio Casciola

No tempo em que as festas de Natal eram iluminadas com velas e lampiões a querosene…

Em 1967, Umuarama teve seu primeiro Natal iluminado por luz elétrica! Desde o início da década de 1950 até fins dos anos 60, na fase da abertura e início da colonização deste território, os precursores viveram num lugar sem infraestrutura básica alguma: não havia luz elétrica, água encanada, rede de esgotos, muito menos asfalto e outras benfeitorias para viver com um mínimo de conforto.

Estavam astronomicamente distantes da civilização que existia nas cidades mais antigas e mais desenvolvidas da época… Essa situação prolongou-se por quase vinte anos, mesmo quando deixou de ser distrito de Cruzeiro do Oeste e conquistou sua independência sendo elevada à posição de município.

Umuarama tinha mais de 113 mil pessoas, 33 mil dos quais radicados na cidade. Diante desses números, não podia ser considerada apenas como “uma vila”! Já figurava entre os maiores produtores de café do Paraná, quando o Estado liderava absoluto o ranking brasileiro da cafeicultura (chegou a produzir 60% do total nacional!). A extração da madeira era outra rica fonte econômica – tanto é que destruíram todas as florestas que aqui antes existiam…

Mesmo assim, Umuarama não recebia a atenção dos governantes e o plano piloto que previa toda infraestrutura urbana ainda não havia nem saído do papel… E nem se falava nisso, pois ninguém defendia essa causa por ignorância administrativa e desinteresse político. E a população sofria calada, procurando disfarçar os sofrimentos trabalhando, trabalhando duro na roça…

Leia também: Antigamente o Natal era todo dedicado a Jesus, ninguém falava em Papai Noel!!!

Sem energia elétrica, a cidade não era nada!!!

Entre o amontoado de problemas que atormentavam a população estava a falta de energia elétrica, que em outras cidades do interior paranaense já existia!!! A geração da era moderna de hoje nem imagina o que é viver assim, esquecidos na escuridão…

Mas, depois de desenhar esse cenário melancólico, vou direto ao ponto para abreviar esta crônica: a notícia de que a Capital da Amizade deixaria de ser um lugar esquecido e abandonado aconteceu na campanha eleitoral de 1966.

Foi quando o candidato a governador Paulo Pimentel passou por aqui. Num discurso na pracinha central, ele prometeu que acabaria com essa injustiça. E que, caso eleito, sua primeira decisão seria presentear a população de Umuarama com a luz elétrica!

Aliás, eleito foi com uma votação recorde. Em seguida, assumiu o Palácio Iguaçu! Numa de suas primeiras decisões em seu gabinete foi assinar decreto para instalar uma geradora de energia elétrica em Umuarama. Cumpriu a promessa!

Os mais criativos, para dar um colorido especial, pintavam as lamparinas de dourado…

E fez-se a luz e a cidade saiu da escuridão…

Em 27 de abril de 1967 Paulo Pimentel voltou a Umuarama e a população o recebeu com a maior manifestação de entusiasmo já vista na cidade naqueles antigos tempos!

Em clima de ruidosa festa (até parecida com o Natal), com queima de fogos de artifício que parecia não acabar mais, aconteceu uma passeata gigante… Parecia que toda a nossa gente estava naquela velha e empoeirada Avenida Paraná. Com uma banda da PM que veio especialmente para abrilhantar o evento, Pimentel inaugurou a Usina Termoelétrica da Copel, com 3 mil KW, lançando o Programa Estadual de Eletrificação. Um dia memorável, que passou para a História do Paraná!

Essa usina tinha motores gigantes, pintados de verde e branco, com a inconfundível marca do jovem governador: um retângulo com um círculo verde ao meio e o slogan “PARANÁ, AQUI SE TRABALHA”. Esses motores movidos a diesel chegaram para antecipar em alguns anos o progresso regional, pois, além de iluminar Umuarama depois as redes elétricas foram estendidas para os municípios vizinhos.

Vale acrescentar que junto com os motores chegaram tanques gigantes, com capacidade para mais de 30 mil litros de diesel cada um, que faziam os motores geradores de luz elétrica funcionar… Eles eram brancos e reluziam com a forte luz solar, com brilhos que subiam aos céus e era possível ver de looonge…

O povo ficou admirado com as super máquinas

Durante horas no dia da inauguração, o povo permaneceu no local admirando aquelas super máquinas modernas que nunca haviam visto na vida. Os mais contentes formavam rodas e ficam pulando de alegria, repetindo em alto e bom som o nome de Paulo Pimentel, mesmo depois de ele ter ido embora voltando a Curitiba. A festança foi até o anoitecer e, de certa forma, antecipou o que seria o Natal…

Durante os meses seguintes, a Copel trabalhou em ritmo acelerando instalando as redes de fios elétricos na Avenida Paraná e nas ruas paralelas. Posteriormente, com o serviço terminado, os imóveis residenciais e comércio começaram a receber a tão sonhada luz, substituindo os lampiões e velas que usavam antes… Vocês podem imaginar a alegria que nossa gente sentiu quando acendeu pela primeira vez uma lâmpada elétrica?!!!

Anos depois começou a surgir o modismo da “iluminação natalina”, com o lançamento de lampiões “natalinos” que eram vendidos nas lojas. Além da luz, eles decoravam em grande estilo o interior das casas durante horas seguidas das demoradas confraternizações com jantares e bebidas especiais como vinhos e champanhes

E em 1967 aconteceu o primeiro ‘natal iluminado’ em Umuarama!!!

O tempo foi passando e chegou dezembro, mês do Natal… Maior euforia entre uma parte dos umuaramenses, aqueles que viviam na região central onde já haviam sido instalados os postes e a fiação da Copel. Eles foram os felizardos que pela primeira vez reuniram as famílias na Ceia de Natal com as suas residências completamente iluminadas pela modernidade elétrica antes nunca vista.

Embora ainda não existissem artefatos de decoração natalina elétrica (como os de hoje), eles procuravam enfeitar tudo com criatividade, usando flores, tecidos coloridos, desenhos feitos com tintas nos tetos e paredes das casas e nas cercas de madeira nos quintais.

Criatividade que merece registro: as mulheres cobriram as árvores com grandes bolas de algodão branco dando a impressão de que havia caído neve sobre elas. Genial, né!!!

Enfim, aquela noite passou com muitas cantorias natalinas com violeiros. Depois de esgotado o repertório de hinos religiosos, mudaram para os sucessos da música caipira da época… E assim a madrugada passou veloz e quando menos esperavam nasceu o sol! Já era Natal!!! O primeiro natal histórico com luz elétrica!!!!! (ITALO FÁBIO CASCIOLA, Especial para OBEMDITO)

Ítalo Fábio Casciola

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