Para os índios Xetá, que na época da colonização e pré-fundação de Umuarama viviam nesta região, em meados do século passado, a harpia era o símbolo da força. - Foto: Acervo Ítalo Fábio Casciola/Wild Expedition
Vejam só que paradoxo: o Paraná é o único Estado brasileiro que possui duas aves em sua simbologia oficial: a gralha azul, consagrada por lei como a ave-símbolo, e a harpia, ornamento do escudo de armas estadual.
No entanto, essas duas espécies estão à beira da extinção em virtude da monumental devastação das florestas ao longo do século passado. Elas ainda existem, mas quase nem são notadas de tão poucas que sobreviveram, em municípios ao Sul do Estado. No Noroeste elas desapareceram… Mesmo expulsas com as derrubadas das matas, ambas só ‘sobreviveram’ porque estão presentes na cultura paranaense, especialmente no folclore e na simbologia.
Mas a admiração, diria adoração, tanto pela harpia como pela gralha azul e outras espécies, vem dos primórdios de nossa história, décadas antes da fase de pré-colonização do Paraná, por parte de diversas etnias indígenas.
E essa história tem tudo a ver com a região de Umuarama. Os extintos índios Xetá, que habitavam as terras de Serra dos Dourados e arredores, apesar de pouco dedicados à arte plumária. Confeccionavam brincos e outros adereços tirados dessas aves, até mesmo o próprio couro emplumado colorido de pássaros para pendurá-los em suas orelhas e pescoços.
Segundo relatos de antigos expedicionários que se aventuraram em pesquisas no habitat dos Xetá, os indígenas tinham nas aves um elemento importante em seus rituais e crenças, destacando-se dança do Urubu-Rei, por exemplo, relacionada aos ritos funerários.
Para os selvícolas que predominavam neste território – depois invadido e colonizado por aventureiros que chegaram de todos os cantos do País e até do exterior -, a harpia, era considerada “o pai de todos os pássaros” e “símbolo da força”. Essa ave, caçadora temida capaz de manobras arriscadas em alta velocidade para abocanhar suas presas, era um verdadeiro personagem de veneração.
Eles viam na harpia um guerreiro, que se distinguia das outras aves de rapina pelo seu cocar na parte de trás da cabeça, que fica levantado quando ela está irritada. Segundo os estudiosos especialistas em costumes das nações indígenas brasileiras, o cocar da harpia serviu de modelo para ele enfeitarem os corpos com plumas. Suas penas, negras com listras brancas, eram cobiçadas pelas tribos.
Porém, como adiantei no primeiro parágrafo desta Trilha, trata-se de um completo absurdo. Não é preciso ser nem ecologista, ornitólogo nem ter a pieguice de um poeta para traçar uma imagem da realidade. A gralha azul, há muito tempo, com a extinção dos pinheirais da maior parte do território paranaense, inclusive na região de Umuarama, está em processo de extinção diante da destruição de seu habitat.
Com relação à harpia, o caso é ainda mais grave. Esta raramente é encontrada em nosso Estado e, quando aparece em algum lugar, é um “acontecimento” com as mesmas proporções da chegada de um extraterrestre a bordo de um disco voador… A harpia continua garbosa e imponente apenas no alto do brasão de armas do Paraná…
Mas sobre isso vou cronicar na próxima edição para que as novas gerações de Umuarama e dos arredores aqui do Noroeste conheçam essa ave rara, que só é vista no símbolo do Estado que está presente por todos os lados em repartições públicas e especialmente nas escolas da rede estadual de ensino: o brasão de Armas do Paraná.
(ITALO FÁBIO CASCIOLA, Especial para OBEMDITO)
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