Umuarama

O gaúcho que nunca foi ao Rio Grande do Sul e vende bebida de caranguejo

Ao caminhar pelo começo (ou fim) da avenida Paraná, no centro de Umuarama, os cenários despertam memórias afetivas. Entre elas, destaca-se a antiga rodoviária, que abriga histórias marcantes da cidade. Bem na esquina de um dos corredores, encontra-se um bar que faz parte da vida de muitos umuaramenses, o Bar do Gaúcho.

O balcão de mármore é uma praxe. Os salgadinhos suspensos indicam que todo o espaço é aproveitado. Nas prateleiras há um quadro do Santos, miniaturas de ônibus e inúmeras correntes e pulseiras que foram esquecidas por quem já passou pelo local. Uma raspadinha, uma cartela de isqueiros e um quadro branco usado como tabela de preços completam o ambiente.

De voz baixa e serena, com a simpatia característica de quem cresceu no sítio, mas com um olhar atento a tudo ao seu redor, Alcides Stell, de 64 anos, comanda o local há três décadas.

Natural de Maringá e radicado em Altônia, ele assumiu o apelido de “Gaúcho” por conta do nome já existente do estabelecimento. “Eu e meu cunhado assumimos o ponto e não trocamos o nome. Depois, fiquei sozinho e o apelido de Gaúcho se espalhou”, relembra.

Mudar-se para Umuarama representou uma grande transformação em sua vida. Acostumado ao trabalho no campo, Gaúcho, de repente, se viu cercado por pessoas e, para tornar a mudança ainda mais complexa, precisou se adaptar a noites em claro.

“No começo, eu até pegava no sono, mas, aos poucos, fui me acostumando, fazendo amizades e me empolgando”, explica.

O que seria um emprego temporário tornou-se definitivo, muito por conta da fama que o bar conquistou na cidade e da variedade de bebidas que Gaúcho oferece.

Caranguejeira no Bar do Gaúcho

Entre as 21 opções de cachaça disponíveis no bar, uma se destaca: a caranguejeira. Essa bebida especial, vinda diretamente da Bahia, é curtida com o próprio animal dentro da garrafa. Para alguns, pode causar aversão, mas, para muitos tornou-se a favorita.

Não demora para um cliente aparecer no Bar do Gaúcho e fazer o pedido. Em poucos minutos de conversa com Gaúcho, Débora Aline chega e, sem precisar dizer o nome da cachaça, pede: “A de sempre.” Rapidamente, Gaúcho serve uma dose caprichada da Caranguejeira.

“Venho aqui no Bar do Gaúcho há mais de 20 anos só para tomar a famosa pinga Caranguejeira. É a bebida mais gostosa do estado do Paraná”, afirma Débora.

A relação de amizade entre clientes e dono do bar é tão longa que, se necessário, Gaúcho até ‘pendura’ a conta. “Sou de São Paulo e, quando cheguei aqui, conheci o Gaúcho e a pinga dele. Desde então, não larguei mais. Todo dia estou aqui porque virou tradição”, complementa Débora.

Gaúcho não sabe ao certo como a bebida viralizou na cidade, mas reconhece que ela contribuiu para o sucesso do bar. Por muitas madrugadas, o Bar do Gaúcho foi um dos principais pontos de encontro de Umuarama. Universitários costumavam se reunir ali e até usavam o local como mural de recados.

“Se um cliente passava por aqui antes de seguir para outro lugar, deixava um recado para o amigo que ainda chegaria. Chegou uma época em que havia tantos recados que tivemos que criar um mural com bilhetes”, conta ele.

Gerações de Clientes

Atualmente, Gaúcho não trabalha mais durante a madrugada. Por volta das 20h30, fecha as portas e também descansa aos domingos. Mesmo assim, a clientela fiel se adaptou aos novos horários. Além disso, antigos clientes frequentemente retornam para ‘jogar conversa fora’.

“Muita gente que não mora mais em Umuarama, quando vem visitar a cidade, passa aqui para relembrar momentos vividos. Isso me traz uma satisfação enorme”, afirma.

O Gaúcho – que nunca foi ao Rio Grande do Sul – e que nunca bebeu uma cachaça, reconhece a felicidade que esse cantinho da rodoviária antiga proporcionou, e espera continuar colecionando histórias por muitos anos.

“Com o bar eu criei meus dois filhos, que hoje são casados e estão bem. Hoje eu tenho uma vida tranquila graças a tudo o que vivi aqui. Sou grato por tudo o que conquistei com o Gaúcho”.

Carlos Da Cruz

Formado em 2015 no curso de Jornalismo, pela Unigran - Dourados/MS. Trabalhou com telejornalismo por 9 anos. Apaixonado por esportes, principalmente futebol.

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