Umuarama, no final da década de 1950, ainda se resumia ao pequeno "centro" (praça Arthur Thomaz). Mesmo rodeada por um imenso território deserto, era uma cidade tranquila como seu próprio slogan indicava: "Capital da Amizade" - Fotos: Acervo Italo Fábio Casciola

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Antigamente, Umuarama era uma pequena cidade rodeada por uma imensa floresta…

Mas não existia violência e nas noites escuras a população dormia tranquila e feliz…

Umuarama, no final da década de 1950, ainda se resumia ao pequeno "centro" (praça Arthur Thomaz). Mesmo rodeada por um imenso território deserto, era uma cidade tranquila como seu próprio slogan indicava: "Capital da Amizade" - Fotos: Acervo Italo Fábio Casciola
Antigamente, Umuarama era uma pequena cidade rodeada por uma imensa floresta…
Ítalo Fábio Casciola
OBemdito
4 de outubro de 2023 14h14

Já ouvi muitas vezes, e concordo plenamente, o doloroso desabafo: “Um dia eu quero sair daqui e ir viver num lugar sereno, sem barulho e sem bandidos causando pavor nas madrugadas, nem buzinas e baderneiros gozando de impunidade para tirar o sono da gente. Esta cidade está ficando cada vez mais neurótica!”. É, pois é… Já não se dorme mais como naquelas noites tranqüilas e felizes de antigamente!

Querem ver como Umuarama não é mais “aquela do século passado”? Vamos começar pelas casas dos anos 1950 e 60: as portas e janelas viviam sempre abertas, principalmente naquelas noites quentes de verão. A maioria nem tinha fechaduras, apenas tramelas, que se abriam com um simples safanão.

Os quintais não tinham muralhas nem cercas elétricas (até porque nem existia “isso” naquele tempo), só uma cerca de pequenas tábuas (balaustres), com no máximo um metro e meio de altura. Elas existiam apenas como divisas entre vizinhos ou para não deixar o cachorro e as galinhas botadeiras escaparem. E, vejam bem, como não havia agências bancárias, os moradores guardavam o pouco dinheiro que tinham ou alguns pertences de valor, numa cômoda do quarto ou debaixo do colchão…

A típica cena noturna do passado era outra, bem romanesca, que hoje só podemos vivenciar revendo filmes antigos com cenários românticos, dominados por aquela paz celestial. Era comum em Umuarama – e nas demais cidades interioranas – colocar cadeiras em frente ao portão, reunindo a vizinhança em intermináveis tertúlias, muitas delas regadas com um café quentinho ou uma caipirinha. Esses bate-papos, entre os mais alegres, acabavam em rodas de viola, com odes saudosistas à terra natal de cada um.

Outros, mais boêmios, preferiam vagar pelas poucas ruas, ainda escuras por falta de luz elétrica, fazendo serenatas. Numa mão, alguém levava um lampião a querosene. Outro tocava o violão e, os mais musicais, cantavam canções louvando a beleza da mulher amada ou amargando uma cruel dor-de-cotovelo. De vez em quando, a melodia era interrompida pelo apito de um guarda noturno, lá longe, mandando avisar para cantar mais baixo que o povo queria dormir, afinal já eram 4 horas da matina…

Pacífica e ordeira, as antigas casas de madeira de peroba de Umuarama eram frágeis, simples e não possuíam a mínima segurança, afinal reinava a paz. Não havia altos mutos nem cercas elétricas como agora. Apenas tinham uma cerca de tábua de madeira de no máximo 1,5 metro… – Foto: Acervo Italo Fábio Casciola

Completando a sonoplastia das madrugadas de outrora, as corujas a piar, em sua fiel vigília. Lá pelas tantas, uma legião de sapos (ou seriam rãs?) se manifestava na beira de um córrego num coro bem afinado e até divertido de se ouvir. Os únicos sons estranhos, diria cavernosos, vinham da mata ali perto, onde uma onça anunciava que estava com fome, ou de alguns catetos e javalis também à procura de algo saboroso para comer.

Mas, também devo admitir que existia um pequeno gueto sombrio, nem tão inocente quanto alguém possa supor, nessa paisagem bucólica que tento pintar sobre essas tais noites do nosso passado. Para os mais carolas, as trevas escondiam atividades condenáveis ao fogo eterno: em alguns botecos do antigo “centro”, naquelas ruazinhas soturnas próximas à Avenida Paraná, funcionavam alguns tunguetes, onde jogadores de baralho contumazes apostavam até as calças. Em plena madrugada, inevitavelmente, deixavam escapar os brados de “truco!”, seguidos de ruidosas bebemorações. Os comentários, nas manhãs seguintes, os mais suaves possíveis, eram de que esses “eram verdadeiros antros do jogo de azar”. O protesto dos fervorosos católicos e evangélicos era veemente.

Agora, o que azedava mesmo o humor dos beatos, principalmente dos padres e pastores, era a “zona”, ou baixo meretrício, que desde os primórdios de Umuarama funcionou diuturnamente, por anos seguidos, próximo à saída para Xambrê. Nas noites calmas e com o vento a favor, a cidadezinha – mesmo construída a quilômetros do “centro” – parecia estar bem perto, pois dava para ouvir a música que animava quengas e festeiros, que dançavam freneticamente ao som daqueles “conjuntos de zona”.

Horrorizadas, as famílias diziam que aquela era a “música do demônio” e o lugar era o “Bairro do Pecado”. Mas era preciso admitir, por bem ou por mal, que a zona sempre existiu. E toda financiada pelas fortunas que o café gerava na época, afinal eram os comerciantes e trabalhadores que ganhavam dinheiro com as colheitas eram os que pagavam as farras na ZBM. Caso contrário, o “Bairro do Pecado” não existiria, cerrrrto???

As duas portas de uma casa (a da entrada da frente e a do fundo) possuíam TRAMELAS que as mantinham fechadas. Eram tão frágeis que com um pontapé podiam ser abertas ou derrubadas. Mas no passado já distante ninguém corria perigo de ser assaltado, então, ainda nem eram usadas chaves, correntes e ou cadeados… – Foto: Acervo Italo Fábio Casciola

Ali naquele antro das quebradas lá pela saída de Xambrê, de vez em quando saíam algumas pancadarias entre bêbados e valentões, mas depois ficava tudo por isso mesmo e… a farra seguia forte e animada rumo ao sol raiar.

Porém, no final das contas, boemias & folias à parte, chegamos à conclusão de que vivíamos num paraíso em que não havia violência, com exceção de alguns casos, raros, de tiroteios que aconteciam na zona rural por força de invasões de terras ou a fúria de alguns pinguços. Mas, exigir criminalidade zero num lugar primitivo e rodeado de selva fechada, aí também é pedir demais pra sorte, né?!

Os demais “crimes”, ainda que poucos, eram praticados pelos “ladrões de galinhas”, gatunos espertos habituados a invadir os quintais para afanar roupas no varal, principalmente aqueles “trajes domingueiros”, mais vistosos que as rústicas camisas e calças de trabalho; objetos domésticos e, claro, umas “penosas” para fazer uma canjinha ou uma galinhada de fim de semana.

Esses malandros aproveitavam os descuidos das donas-de-casa, mas nunca se teve notícia de que eles tivessem cometido algum ato de violência contra algum morador. Eram apenas uns vagabundos, sem nenhuma aptidão e vontade de trabalhar, que assim conseguiam alguns trocados para encher a cara.

Merece registro o famigerado jogo do bicho, contravenção que fez história e faz parte da cultura nacional. Assim como em todos os lugares, aqui também predominou desde os primeiros tempos da cidade. Mas era “normal” e as bancas para “fazer a fezinha” estavam por todos os lados do centro de Umuarama, “trabalhando” sem ser incomodados por ninguém…

A verdade é que a antiga e pequena Umuarama, naqueles tempos que não voltam mais, acordava radiante com o brilho do sol e os galos em côro a saudar um novo dia que chegava para uma outra jornada de trabalho, que estava apenas começando com novas aventuras pela frente até a noite chegar novamente. E começar tudo outra vez…

Por essas e outras, é que a saudade é uma das mais deliciosas sensações que alguém pode desfrutar. E ainda há quem diga que a vida era ruim, hein?! Ela só era dura para que era mole e para aqueles que não prestaram atenção ao tempo passar. Pensam que viveram, mas na verdade apenas vegetaram e não vão levar nada de sua própria história… (ITALO FÁBIO CASCIOLA)

Durante os dias Umuarama era calma, quase deserta – pois a maioria da população do município vivia no campo numa época em que reinava a cafeicultura -, imaginem à noite… Até porque não havia energia elétrica nem iluminação pública, portanto, andar pelas ruas só nas noites de lua para fazer serenatas… – Foto: Acervo Italo Fábio Casciola

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