Umuarama

Italo: Sem estradas, Umuarama já teve avião como principal meio de transporte

Depois que a Cia Melhoramentos iniciou os trabalhos para executar o projeto de construção urbana da então futura cidade de Umuarama, teve início a segunda etapa aeroviária, que consistia na chegada dos futuros compradores de lotes urbanos e rurais trazidos pelos antigos corretores –na época chamados de ‘picaretas’.

Eram fazendeiros e ricaços vindos de São Paulo e Minas Gerais. E só podiam chegar aqui, neste então ‘fim de mundo’ sem estradas de rodagem, embarcados em aviões. A primeira empresa aérea a atender Umuarama foi a Real, uma superpotência na época. Bem depois começou a atuar outra poderosa, a Sadia.

Foi um show quando desceu em Umuarama o primeiro Dart Herald, o super jatão da empresa, em 1970. Rendeu manchetes nos jornais locais…

A colonizadora investia alto em publicidade em veículos de comunicação de circulação nacional, como revistas e jornais. Esses anúncios fizeram crescer o número de interessados em investir alto aqui neste recanto paranaense e com um forte objetivo – a cafeicultura.

O café valia ouro, daí o nome ‘Ouro Verde’, como foi batizada essa deliciosa bebida… Todos os dias aterrissavam no aeroporto de Umuarama, cuja pista era de terra. Repito, dezenas de aviões de todos os portes. E era aquele loucuuura…

A Real foi a pioneira em transportes aéreos em Umuarama e na região noroeste paranaense.

Pouco tempo depois a Sadia chegou com aviões maiores e mais modernos.

Furacão de poeira

Além do forte barulho dos motores e das hélices dos ‘jatões’, como a população os chamava, apesar de serem antigos e sem a moderna tecnologia atual, eles provocavam um furacão de poeira lá pelos lados do aeroporto. Com os ventos, a terra leve e solta subia nas alturas. A cada chegada, o povo comemorava, principalmente os mais jovens…

‘Corram, venham ver, tem mais um jatão chegaaando…’. E muita gente não só saía de casa para admirar as máquinas voadoras como também havia aqueles que pegavam seus jipes e seguiam lá pro aeroporto para ver de perto os ricaços descendo das aeronaves.

Com roupas finíssimas e caras, mais os tradicionais chapéus –na época todos os homens usavam chapéus, era uma peça obrigatória como são hoje os bonés. Para completar a elegância calçavam botas ou sapatos italianos, peça da moda de então.

Os ricos fazendeiros tinham seus “teco-tecos”, mas havia os que funcionavam como táxis aéreos…

Teco-tecos pareciam passarinhos no céu

Havia ainda os mais esnobes que desciam nas escadas dos aviões acendendo os vistosos charutos cubanos. Os ‘teco-tecos’ pareciam passarinhos voando no céu…

Além das aeronaves de grande porte da Real e da Sadia, existiam também os ‘teco-tecos’, aqueles aviões pequenos, de um só motor e uma hélice na ponta, usados pelos fazendeiros para pequenos trajetos. Uma espécie de táxis aéreos, barulhentos, trêmulos e frágeis.

Cabiam apenas 3 passageiros: o piloto, um viajante ao seu lado direito tipo carona e o outro atrás meio amassado pela falta de espaço. E nada de levar um monte de malas. Apenas um pasta de mão… A sua chegada era anunciada pelo barulho irritante de suas pequenas hélices –teco, teco, teco…

Vistos aqui do chão mais pareciam passarinhos de tão nanicos que eram. Eles chamavam a atenção pelas suas cores, mais atraentes que as dos aviões maiores. Vermelhas, amarelas ou verdes.

Nas asas da Sadia,Umuarama e o Paraná entraram na Era do Jato. Observem os detalhes neste anúncio na O Cruzeiro, a revista de maior circulação no Brasil naquela época, 1967.

Chuva, a pior inimiga dos pilotos

Como narrei antes, o aeroporto não era asfaltado e quando desciam as aeronaves, pequenas ou grandes, levantavam imensas nuvens de poeira. Em dia de chuva, claro, os aviões sumiam. E depois, quando a ‘pista’ do aeroporto estava molhada e coberta de lama pelas águas, reinava o pânico na cabeça dos pilotos e dos passageiros.

Muitas vezes tinham que voltar ao ponto de partida e esperar o solo secar. Para evitar possíveis acidentes, ele ficava interditado até o solo secar –ao bater as rodas na pista barrenta a aeronave facilmente capotaria virando uma tragédia.

Tinha ainda outra dor de cabeça. Quando a terra secava, os trabalhadores que cuidavam do aeroporto tinham que tapar os buracos e rachaduras que as chuvas haviam aberto na ‘pista’… Um buraco daquele faria um avião rodopiar e sair quicando, como uma bola, pra todo lado.

Vejam só, o que era perigoso na metade do século passado, hoje contando parece divertido, recordando os velhos tempos em que o rugido daqueles jatões da Sadia e da Real retumbava no meio da mata verde que existia ao redor da nova cidade que estava nascendo: Umuarama. Era a década de 1950. Façam as contas, 70 anos atrás…

A primeira estrada mais parecia uma trilha e impossível de percorrer em dias chuvosos. Com tempo bom, demorava mais de 2 dias para rodar de Umuarama a Maringá. Isso provocou a única opção – o transporte aéreo.

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* Italo Fábio Casciola é jornalista, escreve semanalmente para OBemdito e tem o seu próprio portal, www.colunaitalo.com.br

Ítalo Fábio Casciola

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