Cerzir e aplicar bordado: Fátima mostra o vestido que customizou durante as oficinas de upcycling - Fotos: Graça Milanez/OBemdito
Uma roupa que seria descartada pode ganhar nova vida. Uma peça com defeito pode se transformar em uma criação diferente. E retalhos que iriam para o lixo podem virar bolsas, aventais e outros objetos. Essa é a proposta do upcycling, técnica que consiste em reaproveitar materiais e produtos que perderam sua utilidade original, transformando-os em novas peças, com valor e função renovados.
Em Umuarama, mulheres da periferia estão aprendendo a colocar essa ideia em prática nas oficinas promovidas pela ONG Grupo União Pela Vida. Além do aprendizado das técnicas de costura e customização, a iniciativa oferece oportunidades de convivência e troca de experiências.
A reportagem de OBemdito acompanhou uma das oficinas e encontrou um grupo bastante entrosado, com mulheres dispostas a aprender, experimentar e compartilhar conhecimentos. Entre uma costura e outra, a conversa corria solta. Uma ajudava a outra, as dúvidas eram discutidas coletivamente e cada pequena conquista era motivo de satisfação.
As atividades começaram em junho e seguem até o final do ano, na sede da entidade, que disponibiliza as máquinas de costura utilizadas pelas participantes. A costureira Aleteia Maria do Nascimento conduz as aulas respeitando o ritmo e as habilidades de cada mulher.
O aprendizado começa do zero. Muitas participantes nunca haviam utilizado uma máquina de costura doméstica. Por isso, as primeiras aulas incluem orientações sobre como passar a linha na máquina e fazer a primeira costura reta.
A partir daí, o conteúdo avança conforme as possibilidades de cada uma. Elas aprendem a tirar medidas, utilizar uma peça como modelo para cortar outra, combinar tecidos e fazer diferentes tipos de acabamento. Também realizam pequenos consertos nas roupas do brechó permanente mantido pela ONG.
Entre os trabalhos desenvolvidos estão barras, aventais, luvas de cozinha, capas para botijão de gás, toalhas e caminhos de mesa. Calças jeans antigas podem virar bolsas, enquanto vestidos, bermudas e blusas ganham novas formas por meio da customização.
Outro material aproveitado são os retalhos recebidos de fábricas de sofás e cortinas. Tecidos que poderiam terminar no lixo passam a integrar novas criações.
As participantes do upcycling também aprendem pintura em tecido, uma alternativa para recuperar roupas manchadas ou dar um novo aspecto a peças que já não agradam tanto.
Para Aleteia, os resultados da oficina de upcycling vão muito além das peças recicladas. Ela observa mudanças na autoconfiança e na autoestima das mulheres, que passam a reconhecer melhor suas próprias capacidades.
O trabalho coletivo também tem importância especial. “Algumas participantes apresentam dificuldades motoras, inclusive em razão de sequelas de AVC ou da doença de Parkinson. Nessas situações, uma ajuda a outra, respeitando os limites e o tempo de cada uma”, explica.
Os encontros também se transformam em momentos de conversa. As mulheres compartilham histórias familiares, falam da rotina de casa, dos sentimentos e dos sonhos.
A professora diz que fica especialmente feliz quando vê uma participante concluir uma peça. “É quando os olhos brilham e surge o orgulho pelo que foram capazes de criar”, exclama.
A viúva Fátima Ferreira, 65 anos, encontrou nas oficinas de upcycling uma oportunidade de sair um pouco da rotina de casa. Ela conta que participa porque se sente muito só. “Aqui uma apoia a outra”, diz.
Uma das peças que mostra com satisfação é um vestido que tinha um rasgo. Fátima fez o cerzimento e, para disfarçar o reparo, aplicou um bordado sobre o local. Depois, repetiu o detalhe em outras partes da roupa. “Eu acho que ficou bom”, comenta.
E ficou mesmo, segundo as colegas. Ficou tão interessante que o vestido foi encaminhado para venda no bazar da entidade.
Maria de Lourdes Alves de Souza, de 62 anos, também comemora o que aprendeu. Antes das aulas, não sabia costurar. “Eu não sabia nada de costura… E agora já fiz uma roupa pra mim”, conta.
A viúva Edna Alves Braga, de 57 anos, diz que participa para se distrair, para amenizar a solidão. Ela resume o significado dos encontros em uma frase: “Essa oficina é uma bênção. A gente se ajuda, a gente conversa e aprende”.
Até a presidente da ONG, Selma Gueris de Araújo, participa das atividades. O objetivo dela é aprender a fazer pequenos consertos nas roupas de casa.
O Grupo União Pela Vida desenvolve um trabalho voltado especialmente a pessoas que vivem com infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), HIV/Aids e tuberculose.
A atuação também contempla a população LGBTQIAPN+, mulheres negras, mulheres em situação de vulnerabilidade, pessoas em situação de rua, entre outras que enfrentam desigualdades sociais, raciais e de gênero, preconceito, discriminação, violência e dificuldades de acesso aos serviços públicos.
“As oficinas de upcycling representam mais uma frente de atuação da entidade”, enfatiza a presidente. “Além de ensinar uma atividade prática e estimular o reaproveitamento de materiais, os encontros criam oportunidades para que as participantes convivam, compartilhem experiências e reconheçam suas habilidades.”
E, pelo que OBemdito acompanhou, não falta disposição para aprender. A cada peça concluída, um novo motivo para comemorar.
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