Foto: Renato Pizzuto/TV Band
O primeiro debate entre Lula e Flávio Bolsonaro no segundo turno das eleições presidenciais de 2026 foi marcado por trocas de acusações, provocações e divergências sobre propostas para o país. O encontro aconteceu na noite de domingo (18), na TV Bandeirantes, uma semana antes da votação, marcada para 25 de outubro.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro (PL) discutiram temas como corrupção, segurança pública, saúde, direitos trabalhistas e relações internacionais. Em alguns momentos, os mediadores Adriana Araújo e Eduardo Oinegue precisaram intervir para conter interrupções.
Entre os principais momentos estiveram o desafio de Lula para que ambos abrissem seus sigilos bancários e telefônicos, a mudança de posição de Flávio sobre o fim da escala 6×1 e as diferentes propostas dos candidatos para combater a criminalidade.
Logo no primeiro bloco, Lula questionou Flávio Bolsonaro sobre os R$ 134 milhões relacionados ao banqueiro Daniel Vorcaro e à produção de um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
O petista também cobrou explicações sobre relações atribuídas ao senador com pessoas ligadas ao crime organizado, incluindo referências ao assassinato da vereadora Marielle Franco. Lula ainda mencionou a atuação de Flávio como advogado de um acusado de matar uma criança.
Flávio, por sua vez, direcionou críticas ao filho do presidente, Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, investigado por suspeitas de participação em um esquema de tráfico de influência.
O senador também responsabilizou o governo Lula por irregularidades no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). As acusações foram apresentadas durante o confronto político entre os candidatos e não representam, por si só, comprovação de envolvimento nos casos mencionados.
A segurança pública foi um dos assuntos mais discutidos no debate.
Flávio Bolsonaro defendeu classificar facções criminosas, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho, como organizações narcoterroristas.
O candidato também prometeu criar 500 mil vagas no sistema penitenciário e ampliar o uso de câmeras de reconhecimento facial pelo país. Sua proposta prevê o endurecimento das punições e maior investimento em mecanismos de vigilância.
Lula, por outro lado, reafirmou a intenção de criar o Ministério da Segurança Pública. Segundo o presidente, a pasta teria a função de melhorar a integração entre União, estados e municípios no combate à criminalidade.
O petista também citou medidas de seu governo, como o programa Celular Seguro, que permite bloquear aparelhos roubados ou furtados, e criticou o adversário por não reconhecer iniciativas já existentes.
Outro ponto de divergência foi a saída temporária de detentos, conhecida como “saidinha”.
Flávio citou casos de crimes cometidos por pessoas beneficiadas pelo sistema e questionou se Lula era favorável à manutenção das saídas.
O presidente defendeu o benefício para presos com bom comportamento e que estejam em processo de recuperação. Entretanto, afirmou que condenados por crimes graves, como estupro e violência contra mulheres, não deveriam ter acesso à medida.
Lula também criticou a possibilidade de Flávio conceder um indulto ao pai, Jair Bolsonaro, condenado por crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado.
Na discussão sobre saúde, Flávio Bolsonaro afirmou que pretende levar ao Sistema Único de Saúde (SUS) um modelo de atendimento inspirado no Hospital Albert Einstein, instituição privada de São Paulo.
O senador citou o médico Cláudio Lottenberg como possível ministro da Saúde em um eventual governo. Também defendeu a criação de um prontuário eletrônico unificado, vinculado ao CPF dos pacientes.
Lula questionou a proposta e perguntou se o adversário pretendia privatizar o SUS. O presidente também criticou a condução da pandemia de Covid-19 durante o governo Jair Bolsonaro.
O petista responsabilizou a gestão anterior por falhas no enfrentamento da doença e afirmou que parte das mais de 716 mil mortes registradas no país poderia ter sido evitada com outras decisões sanitárias.
Flávio respondeu que a pandemia representou uma situação inédita e defendeu a atuação do pai, embora tenha reconhecido que os resultados na área da saúde não foram os melhores.
A discussão provocou interrupções entre os candidatos, exigindo a intervenção da mediação.
O fim da escala de trabalho 6×1, que prevê seis dias de trabalho para um de descanso, também entrou no debate.
A proposta, defendida pelo governo Lula e aprovada pelo Congresso Nacional, foi inicialmente alvo de resistência de Flávio Bolsonaro. Durante o encontro, porém, o senador afirmou que mudou de opinião após conversar com trabalhadores.
Flávio destacou que votou a favor da medida e disse estar disposto a rever posicionamentos quando considera que uma mudança pode beneficiar a população.
Lula aproveitou o assunto para criticar a relação do adversário com a realidade dos trabalhadores brasileiros.
O presidente afirmou que Flávio não conhece de perto as dificuldades enfrentadas por quem depende do transporte público e precisa trabalhar diariamente.
A troca de provocações ocorreu em meio à discussão sobre os efeitos da redução da jornada de trabalho e os direitos dos trabalhadores.
Um dos momentos de maior confronto aconteceu no terceiro bloco, quando Lula desafiou Flávio Bolsonaro a abrir seus sigilos bancários e telefônicos.
O presidente propôs que ambos apresentassem informações financeiras e registros telefônicos às autoridades, incluindo documentos de familiares, para permitir a apuração de possíveis irregularidades antes das eleições.
“Eu desafio você. Amanhã abrimos a nossa conta bancária, abrimos o nosso sigilo telefônico para que o povo brasileiro saiba quem é ladrão desse país”, declarou Lula.
Flávio respondeu que não tinha nada a esconder, mas não confirmou expressamente se aceitaria a proposta nos termos apresentados pelo adversário.
Na sequência, o senador acusou Lula de manter recursos fora de suas contas bancárias, sem apresentar provas durante o debate.
A política externa também gerou divergências entre os presidenciáveis.
Lula questionou a relação da família Bolsonaro com os Estados Unidos e demonstrou preocupação com a possibilidade de empresas estrangeiras ampliarem seu controle sobre a exploração de minerais estratégicos brasileiros.
Esses minerais são utilizados na fabricação de baterias, equipamentos eletrônicos e outras tecnologias.
O presidente acusou a família do adversário de agir em favor de interesses norte-americanos, citando a atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
Flávio negou ter trabalhado para prejudicar empresas brasileiras por meio de tarifas comerciais. O senador defendeu a cooperação internacional, especialmente no combate ao tráfico de drogas e ao crime organizado.
Além dos temas que dominaram os confrontos, os candidatos apresentaram propostas econômicas.
Flávio Bolsonaro defendeu medidas para reduzir o endividamento da população, incluindo a suspensão temporária de cobranças de dívidas de pessoas físicas e empresas. Também mencionou a criação de um Ministério da Prosperidade e prometeu manter o Bolsa Família.
Lula destacou ações de seu governo relacionadas à renda, ao emprego e ao combate à inflação. O presidente também questionou se o adversário pretendia adotar políticas econômicas semelhantes às do presidente argentino Javier Milei.
Apesar das propostas apresentadas, boa parte do tempo do debate foi dedicada a críticas às gestões anteriores e acusações entre os candidatos.
O encerramento do debate também foi marcado por uma ocorrência policial na sede da Band, em São Paulo.
O Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate), da Polícia Militar, foi acionado para verificar uma suspeita de bomba em um veículo estacionado na emissora, que pertenceria à equipe de Flávio Bolsonaro.
Durante a operação, jornalistas e convidados foram impedidos temporariamente de deixar o prédio.
Os policiais realizaram uma vistoria no veículo, mas nenhum explosivo foi encontrado. Após a verificação, o local foi liberado.
O debate foi o primeiro confronto direto entre Lula e Flávio Bolsonaro nesta campanha. Os dois disputam o segundo turno da eleição presidencial no próximo domingo (25).
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