Cotidiano

Belas, sedutoras e suspeitas de tráfico de cocaína: as ‘princesas do pó’ em Umuarama

Nas redes sociais, havia perfumes importados, frases de efeito, selfies, milhares de seguidores, alianças, corações e até perfil que se apresentava como “gerado por IA”. Segundo a Polícia Civil, porém, por trás de parte dessa vitrine digital funcionava algo bem menos instagramável: uma organização criminosa voltada ao comércio de cocaína em Umuarama, as ‘princesas do pó.’

A Operação Beverly Hills, deflagrada nesta quarta-feira (7) pela Polícia Civil terminou com o cumprimento de seis mandados de prisão preventiva. Cinco mulheres e um homem foram presos. Também houve duas prisões em flagrante durante as diligências: uma por tráfico de drogas e outra por posse de munição de uso restrito.

SAIBA MAIS: Influenciadora apontada como líder de esquema de tráfico de cocaína ostentava nas redes sociais

O nome escolhido pela polícia para a operação parece combinar com o cenário investigado. Nas redes sociais investigadas pela reportagem, algumas das mulheres exibem perfis típicos da vida digital: fotos cuidadosamente escolhidas, milhares de seguidores e descrições destinadas a construir uma personagem para o público.

Uma delas se apresentava como ligada ao universo de “perfumes importados”, anunciava “fragrâncias importadas originais” e dizia fazer entregas para todo o Brasil. O perfil tinha mais de 6.700 seguidores e 125 publicações.

Em outro, a biografia se limitava a uma aliança. Havia também a jovem que se definia com a frase “Designada a ser vitoriosa” e outra que recorria à máxima: “Onde a maldade não se cria, a má-fé não faz morada”. Ironias que a investigação policial agora coloca sob uma perspectiva bastante diferente.

Outro perfil trazia uma informação ainda mais contemporânea: “Perfil gerado por IA”. Se a biografia era artificial, as acusações investigadas pela polícia são bastante concretas.

As ‘princesas do pó’

A investigação conduzida pelo Setor de Narcóticos e pelo Grupo de Diligências Especiais (GDE) da 7ª Subdivisão Policial aponta que o grupo teria construído uma estrutura organizada para comercializar cocaína na cidade. A suspeita, portanto, vai muito além de algumas entregas ocasionais.

Segundo a PCPR, a organização teria divisão de tarefas para armazenamento, fracionamento e distribuição da droga. Havia ainda, conforme os investigadores, pessoas responsáveis pelo atendimento aos usuários, entregas, cobranças e movimentação do dinheiro obtido com a atividade.

No centro da apuração está uma mulher descrita pela própria Polícia Civil como influenciadora digital. Ela é apontada pela investigação como suposta líder da organização.

É aí que a Operação Beverly Hills encontra seu roteiro quase pronto: enquanto a vida digital vendia imagem, beleza, perfumes e estilo, a polícia sustenta que, fora das telas, o negócio mais lucrativo seria outro. As ‘princesas do pó’, como poderiam ser chamadas no universo paralelo das redes sociais, agora trocaram os stories pelas páginas de um inquérito policial.

As suspeitas, contudo, ainda serão submetidas ao devido processo legal, e as prisões preventivas não representam condenação.

Bloqueio pode chegar a R$ 1,8 milhão

A Justiça autorizou nove mandados de busca e apreensão, além das seis prisões preventivas. Também determinou o bloqueio de até R$ 1,8 milhão em ativos financeiros e medidas para indisponibilizar veículos e imóveis relacionados aos principais investigados.

Durante as buscas, os policiais apreenderam um veículo, aparelhos celulares e diversos produtos de perfumaria, cosméticos e beleza. O material será analisado no decorrer da investigação.

Os mandados foram cumpridos em diferentes regiões de Umuarama: Parque Industrial I, Zona IV, Parque Residencial Metropolitano, região do Parque de Exposições, Jardim Itapuã, Jardim Los Angeles, Parque Bandeirantes, Zona I e Jardim Estância II.

A operação contou com a participação da Força Nacional. A Polícia Civil investiga, em tese, os crimes de tráfico de drogas, associação para o tráfico, organização criminosa e lavagem de dinheiro.

Nas redes, seguidores, frases cuidadosamente escolhidas e imagens de uma vida aparentemente comum. Na investigação, cocaína, dinheiro, patrimônio e uma estrutura que a polícia afirma ter sido montada para fazer a droga circular pela cidade.

A Operação Beverly Hills agora tenta descobrir até onde ia essa distância entre o perfil publicado na tela e a vida que, segundo os investigadores, acontecia longe dela.

Leonardo Revesso

Graduado em Direito pela Unipar, mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e especializando em Neurociência do Consumo pela ESPM. Tutor da Olívia, da Ludi e da Mila. Está no jornalismo há 27 anos (iniciou aos 15). No OBemdito escreve sobre política e consumo.

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