Ítalo Fabio Casciola

Umuarama: Um projeto de colonização faraônico de mais de 500 mil alqueires!

Logo depois de comprar estas terras de um grupo de proprietários, encabeçados pelo pioneiro Raimundo Durães, a colonizadora Cia. Melhoramentos preparou o projeto urbano e iniciou a construção de uma futura cidade “para 200 mil habitantes” (um dia chegaremos lá…).

Um projeto de colonização faraônico, totalizando mais de 500 mil alqueires, do qual germinaria o Norte Novíssimo polarizado por uma cidade que celebraria a amizade: Umuarama, a Capital da Amizade do Brasil!

A área a ser habitada já havia sido totalmente desmatada e só restavam cinzas de uma completa destruição do manto florestal que antes cobria o território. Em meio às cinzas, troncos de todos os tamanhos, carbonizados.

Prontamente chegaram as equipes precursoras da colonizadora: topógrafos, engenheiros, operários, máquinas pesadas e ferramentas para limpar o terreno. Corria o ano 1953, lentamente, mas os serviços andavam rápido: um verdadeiro exército atuava em várias frentes, para se encontrar num centro específico onde surgiria uma ‘praçoleta’ para concentrar os primeiros armazéns (mercados) e lojinhas. Ruas e avenidas estavam sendo abertas, deixando aflorar o arenito caiuá, antes escondido sob as raízes da floresta.

Espalhados ainda restavam milhares de toras de perobas, cedros, pau d’alhos, marfins, amoreiras, gurucaias, ingazeiros, araucárias e outras espécies, que estavam para ser retiradas e enviadas para as serrarias.

A colonizadora tinha pressa para vender os lotes urbanos e os troncos, rapidamente, depois foram desaparecendo. Em poucos meses, começaram a brotar matagais, ricos em ervas daninhas.

Simultaneamente foram sendo criados espaços para diversos setores de importância para a comunidade, como escolas e órgãos de serviços públicos. Nesse ritmo acelerado de desenvolvimento na fase de pré fundação da nova cidade foram surgindo os primeiros bairros residenciais. Quando chegou o ano 1955, previsto para a fundação de Umuarama, o projeto urbano mostrava que havia cumprido suas metas e definitivamente aconteceu em junho a fundação oficial da Capital da Amizade… – Foto: Acervo histórico de Italo Fábio Casciola

As vias públicas recém-abertas pareciam sulcos por entre aquela nova vegetação imprestável. A mais visível cortava a imensa clareira ao meio, hoje Avenida Paraná. Entre o verde, cintilava toda de amarelo meio descorado de areia, o arenito caiuá.

Conforme iam sendo vendidos os terrenos, os futuros habitantes começavam a erguer suas casinhas, todas de madeira, também amarelas, mas com tons rosados.

No começo, como eram poucas, saltavam aos olhos no meio de centenas de quarteirões abertos no lugar, circundados por matas que ainda rodeavam o espaço. Mas, elas, não resistiriam por muito tempo. E, assim que chegava mais gente, as árvores iam caindo a golpes de machado como havia ocorrido com as suas antecessoras…

Naquele início já distante, a pequena vila recém-aberta tinha dois acessos: um que vinha de Maringá, através da trilha reservada para a futura estrada de ferro (que acabou não sendo construída); e outro, rumo a Xambrê, outro lugarejo recém-nascido. De resto, a área ficava incomunicável…

É óbvio que era um tempo de absoluta solidão, um lugarejo melancólico criado no meio do nada, em completo estado primitivo com relação à comunicação com o mundo civilizado que existia a milhares de quilômetros.

O momento mais importante da História de Umuarama: No amanhecer daquele dia congelante de 26 de junho de 1955 foi inaugurada a placa, cravada ao lado da pista de terra do aeroporto, batizando a nova cidade que nascia no Paraná: “Umuarama” – Foto: Acervo histórico de Italo Fábio Casciola

Com muito sacrifício era possível chegar a Maringá e Londrina, mas estas cidades também não ofereciam nada digno de nota, pois igualmente estavam em fase de colonização. A civilização, repito, só era encontrada nas capitais a… mais de mil quilômetros! E as viagens eram absurdamente demoradas por terra, coisa de dias.

A única porta de entrada (e saída) era mesmo o primeiro aeroporto, com pista rudimentar, onde a toda hora aterrissavam e decolavam pequenos aviões (os ‘teco-tecos’), estes fretados por colonizadores afortunados e pelos compradores de terras vindos de grandes centros com ricas contas bancárias.

Na época, voar era privilégio de poucos. Mas era através desses aviõezinhos, também chamados de “Paulistinhas”, que chegavam remédios, instrumentos delicados para topógrafos e agrimensores que não podiam vir em hipótese alguma sacolejando por transporte térreo, e comida para os funcionários das equipes instaladas nos acampamentos da colonizadora.

Só no começo de 1954, depois que a trilha para a ‘futura estrada de ferro’ (uma promessa, um calote secular, pois até hoje ela não saiu do papel – e nem vai ser construída!!!) foi alargada é que começaram as “facilidades” para a passagem de caminhões, ônibus e jipes.

Mesmo assim, era uma penúria: areia em tempo de sol e buracos cheios de lama no período das chuvas. É por ali que também começaram a chegar as centenas de famílias, vindas de todos os lugares do Brasil, à procura da terra promissora que brotava neste imenso sertão de meu Deus.

Vale recordar que era tanta gente chegando que, quando chovia e algum veículo encalhava, formavam-se “engarrafamentos” quilométricos. Muitos montavam acampamentos à beira daquele caminho, à espera que a situação melhorasse para poder seguir viagem. Essas cenas são impensáveis nos dias atuais, portanto, ninguém pode imaginar o que os pioneiros sofreram para chegar…

A Capital da Amizade existe graças a essa poderosa dupla da política do século passado: Moysés Lupion, governador do Paraná na década de 1950 com Hermann Moraes de Barros, presidente da Companhia Melhoramentos Norte do Paraná, foram figuras centrais no desenvolvimento do norte paranaense. E para Umuarama, em especial, Lupion foi o criador do município de Umuarama desmembrando-o de Cruzeiro do Oeste do qual era um distrito – Foto: Acervo/Maringá Histórica

No primeiro verão pós-abertura da clareira para a futura cidade, com o calor insuportável toda a área virou um verdadeiro inferno abrasador, pois não restou nenhuma árvore, apenas quilômetros quadrados de terra exposta ao sol. (Quem diria, antes reinava a sombra úmida e fresca da floresta…)

Quando chegaram o outono e o inverno, então, nova calamidade se abateu: aquelas ruas e avenidas recém-abertas pelas máquinas, transformaram-se em canais de barro nas descidas, lagoas nas baixadas. Com aquela água suja empossada por vários dias, é claro, o lugar ficava completamente coberto de nuvens de mosquitos sedentos por atacar quem aparecesse pela frente. (No passado existia a malária, hoje temos a dengue!)

Tudo o mais que foi acontecendo na sequência continuarei relatando nas crônicas aqui nOBEMDITO, radiografando um passado repleto de aventuras e histórias que misturam saudade, alegria, tristeza, trabalho, heroísmo, fracasso e esperança, ingredientes indispensáveis para coreografar a tragicomédia humana que é a vida. (ITALO FÁBIO CASCIOLA, Especial para OBEMDITO)

Ítalo Fábio Casciola

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