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Mateus Veiga: da ascensão como mago das mechas à prisão sob suspeita de golpes

Por muito tempo, parecia que nada seria capaz de conter a trajetória de Mateus Veiga. O cabeleireiro que começou discretamente nas redes sociais transformou talento em marca, técnica em espetáculo e um salão de beleza em destino para clientes vindas de diferentes regiões do país. Seus vídeos viralizavam, suas transmissões ao vivo atravessavam horas ensinando colorismo, e centenas de profissionais pagavam para aprender aquilo que ele fazia com aparente naturalidade.

Entre mechas, tonalizações e transformações capilares, Mateus Veiga construiu uma reputação rara: a de especialista que não apenas entregava resultados, mas formava outros profissionais. As clientes, tratadas carinhosamente como “Patys”, ajudaram a impulsionar uma comunidade que ultrapassa 520 mil seguidores só no Instagram. 

Na biografia da rede social, o profissional apresenta-se como especialista em loiras e morenas iluminadas, professor de técnicas rápidas e de alto valor. Os links direcionam para agendamentos, cursos, seleção de modelos e áreas exclusivas para seguidores.

Seria o auge de uma carreira construída sobre carisma, domínio técnico e uma comunicação que aproximava clientes e alunos. Mas, como acontece com tantas histórias de sucesso acelerado, a ascensão encontrou seus próprios limites.

O projeto do megassalão que prometia consolidar definitivamente seu nome em Umuarama e no Brasil foi interrompido antes da conclusão. Em vídeos publicados nas redes sociais, Mateus afirmou ter sido prejudicado por sociedades malsucedidas. Também relatou enfrentar graves problemas financeiros decorrentes de um tratamento contra um câncer, dizendo ter perdido praticamente tudo.

A vida pessoal ainda deixou de permanecer nos bastidores. O término conturbado de um relacionamento ganhou exposição pública após a divulgação de vídeos de foro íntimo, episódio que atingiu diretamente sua imagem. As mesmas pessoas que o vitrificavam eram as mesmas que compartilhavam o conteúdo de um término de namoro com doses de chantagem e violência.

A sucessão de acontecimentos foi acompanhada por um afastamento gradual das redes sociais. O profissional que antes ocupava espaço constante na internet passou a aparecer menos. As transmissões frequentes deram lugar ao silêncio. O brilho que parecia inesgotável tornou-se mais discreto.

Mateus Veiga é preso na Operação Modelo da PC

Foi justamente esse silêncio que terminou abruptamente na manhã desta sexta-feira, 3 de julho. Mateus Veiga voltou ao noticiário não por uma nova técnica ou lançamento, mas por ter sido preso pela Polícia Civil, de forma preventiva, durante a Operação Modelo, deflagrada pela 7ª Subdivisão Policial de Umuarama.

De acordo com informações divulgadas pela corporação, sem citar o nome de Veiga, o cabeleireiro é investigado por suposta prática de golpes envolvendo clientes e alunos que contratavam serviços anunciados em seu perfil no Instagram.

Segundo o delegado Thiago Araium Pinheiro, o inquérito reúne ao menos 14 vítimas, número que, na avaliação da Polícia Civil, ainda pode aumentar.

Conforme as investigações, divulgadas pela polícia, pessoas interessadas em participar como modelos para procedimentos capilares recebiam a promessa de desconto, desde que efetuassem pagamento antecipado via Pix. 

Ao comparecerem ao salão, passariam inicialmente por um teste de mecha e, posteriormente, seriam informadas de que não poderiam realizar o procedimento. Ainda de acordo com a Polícia Civil, os valores pagos não eram restituídos.

A investigação também aponta que cursos profissionalizantes anunciados pelo investigado teriam sido pagos antecipadamente por alunos, mas não realizados. Conforme a versão apresentada pela polícia, os participantes não receberam reembolso e, em alguns casos, acabaram bloqueados nos canais de comunicação.

Segundo o delegado, a prisão preventiva foi solicitada porque, conforme o inquérito, haveria registros de vítimas recentes, indicando que os fatos investigados continuariam ocorrendo.

Além da prisão, a Justiça determinou, conforme informou a Polícia Civil, o bloqueio do perfil utilizado pelo investigado no Instagram e de ativos financeiros em valor aproximado de R$ 6 mil, montante correspondente ao prejuízo inicialmente apurado. 

A corporação também orientou que eventuais pessoas que se considerem vítimas procurem a delegacia ou registrem boletim de ocorrência para auxiliar nas investigações.

Até o momento em que esta reportagem era escrita, o perfil de Mateus Veiga no Instagram continuava ativo. Ele não se pronunciou no momento da prisão, segundo informou a Polícia Civil.

Enquanto a investigação segue seu curso e a defesa terá oportunidade de apresentar sua versão dos fatos perante a Justiça, pessoas próximas demonstram perplexidade com o desfecho. Uma pessoa próxima do cabeleireiro ouvida pelo OBemdito afirma que enxerga nele um homem emocionalmente abalado, e não a figura de um criminoso.

‘Ele é um gênio’

“Ele não é um criminoso. É uma pessoa que viu o céu desabar sobre si depois de uma série de erros, por conta do desequilíbrio emocional. É o melhor profissional que eu já vi. Ninguém pode falar que o serviço dele não é bom. Ele é um gênio. Fez muita gente ganhar dinheiro com o que ensinou. Foi um baque vê-lo no noticiário desse jeito”, disse.

Histórias de sucesso costumam ser lembradas pelas conquistas. Histórias humanas, porém, também são feitas de rupturas, escolhas, fragilidades e recomeços. A de Mateus Veiga, que durante anos simbolizou excelência técnica e inspiração para milhares de profissionais, agora entra em um dos capítulos mais delicados de sua trajetória.

Resta saber se a prisão desta sexta-feira representará o ponto final de uma carreira construída com talento ou apenas mais um tombo na vida de alguém que, tantas vezes, já precisou encontrar forças para tentar recomeçar.

A reportagem tenta contato com a defesa de Mateus Veiga. O espaço está aberto para a manifestação do cabeleireiro. 

Correção: Mateus Veiga não responde pelos crimes de furto e roubo e não faz uso de tornozeleira eletrônica. Essa condição é atribuída a outro preso da Operação Modelo, da Polícia Civi.

Leonardo Revesso

Graduado em Direito pela Unipar, mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e especializando em Neurociência do Consumo pela ESPM. Tutor da Olívia, da Ludi e da Mila. Está no jornalismo há 27 anos (iniciou aos 15). No OBemdito escreve sobre política e consumo.

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