Ítalo Fabio Casciola

Os invernos de antigamente eram mais rigorosos e perigosos…

Desde maio temos vivido dias frios (mesmo antes de começar o inverno) e com chuvas intensas, que para piorar a situação provocaram enchentes nas vias públicas centrais e de bairros. Esses fatos motivaram a população a se expressar atormentada na internet com mensagens em que revelavam uma situação de “tortura climática”…

Para alguns, principalmente da nova geração, tem sido um frio como “nunca antes visto” na Capital da Amizade e nas cidades vizinhas!

Mas, institutos de meteorologia estão anunciando que a próxima semana será gelaaaada!!! E o dia especial de 26 de Junho será beeem frio, diferente dos últimos que tivemos bem tranquilos, sem temperaturas baixas. Isso fez com que comemorássemos a data de aniversário de Umuarama felizes e sem jaquetas pesadas, blusas grossas e gorros de lã para nos proteger!!!

O famoso painel “Eu Amo Umuarama” nos últimos dias tem estado rodeado por garoa e muita neblina, confirmando que a temporada mais fria do ano chegou… – Foto: Mayara Cristina

ESTE INVERNO PODE SER RIGOROSO COMO ERAM OS DO SÉCULO PASSADO!!!

Na verdade, apesar de realmente o clima ter tido uma forte mudança comparando com o longo verão que tivemos de 2020 para cá, é importante registrar que historicamente a atualidade não se compara com os terríveis invernos intensos que tivemos no século passado. Mais exatamente nas décadas posteriores à fundação de Umuarama entre 1950 a 1980.

Aquele sim foi um tempo que podemos considerar de “polar”. Todos os anos, entre junho e agosto, a população viveu atormentada por tempestades e até fortes geadas que eram “tradicionais” nas temporadas de inverno.

Foram períodos realmente inesquecíveis pelo sofrimento que os moradores suportaram. Tanto por quem vivia na área urbana como por quem habitava a zona rural de Umuarama. Situações impossíveis de comparar com o clima que vivemos na atualidade.

Eu vivi aquela época e o frio extremo dos invernos do passado eram indiscutivelmente mais perigosos. Os habitantes ficavam muito mais vulneráveis devido à falta de isolamento térmico nas moradias e escassez de tecnologias de aquecimento. Além das dietas limitadas e menor acesso a tratamentos médicos para infecções respiratórias e doenças cardiovasculares, benefícios que temos atualmente ao nosso dispor.

AS CASAS ERAM MUITO DIFERENTES…

Antigamente as residências eram construídas de madeira ou pedra e não ofereciam praticamente nenhuma segurança para se proteger das tempestades, das fortes ventanias geladas e das baixíssimas temperaturas.

Nestes tempos modernos em que vivemos agora, o uso de aquecedores elétricos, ar-condicionado e estruturas residenciais modernas protegem seus moradores à exposição direta às intempéries. Temos ainda as previsões meteorológicas avançadas que evitam que pessoas saiam às ruas despreparadas para encarar o frio e sejam surpreendidas por geadas ou tempestades severas de neve.

No passado o risco de complicações severas, como pneumonia e gripe, era imenso. Não tínhamos a medicina moderna como temos atualmente e nem havia tantos hospitais e nem tantos médicos como existem hoje à disposição da população.

As vias públicas de Umuarama ficam ‘enfeitadas’ pelo denso nevoeiro e invadidas por baixas temperaturas mostrando que já é inverno na Capital da Amizade… – Foto: Mayara Cristina

NO INÍCIO, A ESTRUTURA URBANA NÃO PROTEGIA DO FRIO…

Andar nas ruas era extremamente perigoso e sacrificado, pois nas vias públicas não havia a arborização que existe hoje que pudesse proteger os pedestres das ventanias… Vale repetir que os colonizadores derrubaram as florestas para construir a cidade de Umuarama. E ela foi sendo urbanizada inicialmente sem plantio de árvores, apenas casas de madeira foram sendo construídas nos primeiros tempos.

Muito tempo depois é que foram sendo plantadas as árvores nas calçadas da cidade, mas para se tornarem frondosas demorou no mínimo três décadas (felizmente hoje Umuarama é uma das urbes mais arborizadas do Brasil: Cidade Verde!!!).

Nesse passado que eu estou recordando, Umuarama ainda não tinha prédios e não havia imóveis com muros altos. Isso quer dizer que a cidade estava totalmente desprotegida das ventanias e das chuvas com “ventos uivantes” (como eram chamados na época porque passavam velozes, gelados e com força gigante emitindo sons que assustavam quem estava nas ruas e quem estava dentro de casa).

Eles rodopiavam por todos os lados e havia casos em que arrancavam e derrubavam os frágeis telhados nos quintais das casinhas de madeira…

OS MORADORES SE PROTEGIAM PARA SAIR DE CASA NOS INVERNOS

Nos antigos invernos os moradores só saíam de casa quando as temperaturas estavam suportáveis e não estivesse chovendo. Eram só em casos de urgência: fazer compras de alimentos ou remédios ou outros motivos que as pessoas não podiam adiar.

Uma velha tradição: Todo mundo andava de guarda-chuvas ou com chapéus ou gorrinhos de flanela ou lã, com abas que cobriam as orelhas – esses eram “obrigatórios” pois protegiam das terríveis dores de ouvido e garganta que ocorriam facilmente provocados pelo ar gelado e da garoa que eram comuns.

Dentro das moradias tanto de dia como de noite as lareiras e os fogões a lenha funcionavam 24 horas. Não eram usados apenas para preparar comidas, mas para aquecer a casa toda protegendo seus moradores com calor e… fumaça. Cof-cof-cof!!! Vale acrescentar que a cozinha e ao redor das lareiras eram pontos de encontro das famílias e dos amigos, para tomar café, café com leite e prosear com alegria…

Nesta imagem nostálgica de Umuarama na fase inicial de urbanização podemos observar que nas ruas, avenidas e praças não havia árvores. A floresta que existia antes havia sido totalmente derrubada para construir a nova cidade… O território não exibia proteção nenhuma para “acalmar” as fortes ventanias geladas dos invernos que açoitavam os espaços urbanos tornando a vida dos habitantes daquela época realmente sacrificada e colocando em risco a saúde de todo mundo... – Foto: Acervo histórico de Italo Fábio Casciola

EM CASA TAMBÉM HAVIA RISCO

Por mais incrível que pareça, ficar em casa também era perigoso! A queima de biomassa contida na lenha usada nos fogões e nas lareiras provocava trazia ameaças à segurança e à saúde. Além do perigo de acontecerem incêndios (as casas eram de madeira), o acúmulo de fuligem nas chaminés e dutos é altamente inflamável e podia entrar em combustão com o calor excessivo, espalhando fogo para a estrutura da casa.

E as lareiras consomem o oxigênio do ambiente e liberam monóxido de carbono. Como é um gás inodoro e incolor, pode causar desorientação, desmaios e até morte durante a noite quando a casa estava com janelas e portas fechadas.

A inalação frequente de fumaça, fuligem e partículas finas contribuía para o desenvolvimento ou agravamento de doenças como asma, bronquite e Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC).

Como os invernos antigos eram muito mais gelados que os atuais, as residências tinham lareiras nas salas. Com formatos com linhas arquitetônicas que embelezavam o imóvel, elas ficavam ainda mais atraentes quando estavam acesas para aquecer os moradores e as visitas. As brasas da madeira ou do carvão ostentavam um vermelho intenso colorindo o cenário – Foto: Depositphotos

MESMO COM FRIO CONGELANTE, TODO MUNDO QUERIA SER FELIZ!

Sem a internet de hoje, o jeito era arrumar atividades recreativas para se divertir criando oportunidades para socializar e superar a solidão de não ter o que fazer na vida por causa dos rigorosos invernos.

Ali na antiga Vila Operária haviam alguns botecos que encaravam as baixas temperaturas e atendiam quem queria beber e se distrair em companhia de amigos. Eles deixavam as portas da frente fechadas e os “festeiros” entravam por uma porta lateral.

Lá dentro fechados e num ambiente abafado mas aquecido, jogavam baralho durante horas, tomavas caixas de cerveja e litros de cachaça. E só saíam de lá na madrugada, encarando as ruas congeladas de volta para suas casas…

Outros aproveitavam as tardes dos fins de semana para jogar futebol nos campinhos que existiam em terrenos baldios. Depois das partidas, em churrasqueiras instaladas no local, assavam carnes e comemoravam com bebidas mais um encontro “esportivo”. Quando o fim da tarde chegava e começavam a esfriar, toda a galera sumia em disparada de volta para seus lares.

Movimentação maior acontecia nas igrejas que recebiam católicos e evangélicos para as missas e cultos. Mas depois de concluídas as celebrações, todo mundo imediatamente partia de retorno para casa fugindo do frio!

NO PERÍODO DA NOITE TODOS SE RECOLHIAM…

Mas a grande realidade é que nos invernos, depois que o comércio fechava e quem trabalhava voltava para casa, a cidade ficava completamente vazia. Não havia uma alma viva. Até mesmo os botecos no começo das noites já iam fechando porque previam que a freguesia sumiria…

O único período de inverno que Umuarama ganhava mais movimento era no final de junho, por ocasião das festas do aniversário da Capital da Amizade – 26 de junho. Antes e depois disso, não acontecia nada, absolutamente naaada!!!!

E a cidade virava um deserto nas noites escuras pois ainda não existia luz elétrica. Portanto, não haviam postes nem luminárias para clarear as ruas e avenidas – que, para piorar, eram de terra pois ainda não tinham asfalto.

Buracos viravam lagoas de barro nas noites chuvosas e uma terrível poeira castigava a cidade toda nas noites que não chovia… Uma vida terrívelmente diferente da que vivemos hoje, hein?!!! (ITALO FÁBIO CASCIOLA, Especial para OBEMDITO).

Antigamente era tradição o fogão a lenha nas casas dos pioneiros que viviam tanto na cidade como dos que habitavam a zona rural. Os moradores recebiam parentes, amigos e vizinhos para saborear deliciosas receitas caseiras e prosear durante longaaas horas num ambiente quentinho fugindo da terrível friagem que aterrorizava todo mundo lá fora!- Foto: Depositphotos

(Vídeo: Mayara Cristina)

(Fotos do fogão a lenha e da lareira: Depositphotos)

Ítalo Fábio Casciola

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