Saúde

Após perder empresário, família transforma luto em campanha por doação de órgãos

Em Umuarama, o nome Edson Roberto Peixoto sempre foi sinônimo de confiança e se transformou em uma bela campanha por doação de órgãos. Em mais de 30 anos à frente da Peixoto Corretora de Seguros, como pecuarista e como diretor da Sociedade Rural (SRU), ele construiu uma trajetória de trabalho, palavra cumprida e respeito. Era o tipo de homem que fazia diferença na vida de muita gente, muitas vezes sem que ninguém soubesse.

Edson também ganhou tempo. Dois transplantes de órgãos deram a ele o tempo que um câncer viria a ameaçar. Tempo para seguir trabalhando, para conviver com a família, para continuar sendo a referência que era na cidade. Esse tempo só existiu porque, em algum lugar, famílias desconhecidas disseram sim à doação.

É essa certeza que move hoje a família Peixoto. Depois de perder Edson, em novembro de 2023, a família transformou a dor em causa: conscientizar para que outros pacientes – em outras filas, outros hospitais – também ganhem a chance de continuar através da doação de órgãos.

O homem por trás do nome

Mais do que o empresário, o que a filha Lorena Peixoto guarda com mais carinho é o pai. “Ele era um homem muito honesto, sempre gostou de ajudar o próximo, sempre acolheu a todos. Um homem de muita garra, de muita fé, de muita força. Ele tinha um ditado: ‘o que a mão direita faz, a esquerda não precisa ficar sabendo’. Às vezes nem nós mesmos ficávamos sabendo do quanto ele ajudava as pessoas.”

Em 2020, um diagnóstico de insuficiência renal crônica mudou o curso de sua vida. Edson entrou na lista de espera do Sistema Nacional de Transplantes e, poucos meses depois, recebeu um rim em São Paulo.

A cirurgia foi bem sucedida e permitiu que ele voltasse ao trabalho que tanto amava. Mas a história não tinha terminado.

Mas a história não tinha terminado.

“Faz pra mim o que você faria pro seu pai”

Em 2023, novos exames revelaram uma insuficiência hepática avançada. Edson passou a ser acompanhado pela médica Mariana Vitória Gasperin, cirurgiã especialista em transplante hepático e coordenadora do curso de medicina da Unipar – Universidade Paranaense.

A situação se agravou rapidamente. Internado na UTI, debilitado, com dificuldade de fala e de movimento, Edson precisaria agora de um transplante combinado de rim e fígado. E foi então que aconteceu uma cena que Lorena não esquece.

“Meu pai olhou pra ela e falou: ‘Mari, faz pra mim o que você faria pro seu pai’. Ela respondeu, emocionada: ‘Eu tô fazendo, seu Peixoto. Confie em mim’. E ele disse: ‘Então vamo. Eu vou confiar em você’.”

Peixoto com a Dra. Mariana, que acompanhou a luta do empresário – Foto: Arquivo pessoal

A espera na fila de doação de órgãos foi longa e angustiante. “Você não sabe se está sendo injusta orando, pedindo a Deus pra trazer esse órgão pro seu ente querido. Dá a impressão que você tá querendo que alguém perca a vida pra que seu familiar tenha vida. Foram momentos muito difíceis”.

A notícia tão aguardada chegou em junho de 2023, numa madrugada. “Quando você recebe a notícia de que o seu pai será transplantado, é uma alegria imensurável. E graças a Deus deu tudo certo”.

Mas o corpo guardava uma ameaça oculta. Um diagnóstico de câncer agressivo, com metástase e em 6 de novembro de 2023, Edson Roberto Peixoto faleceu aos 64 anos.

“Mas graças ao transplante nós pudemos ter mais três meses de vida com ele. Se não fosse o câncer, com certeza ele estaria aqui ainda”.

Da perda ao propósito

Quatro meses após a morte do paciente, a médica que o acompanhou procurou Lorena com uma ideia: uma campanha de conscientização sobre doação de órgãos em Umuarama em parceria com a Liga Acadêmica de Hepatologia, Doação e Transplante de Órgãos da Unipar — a LAHDTO.

A família topou e a Sociedade Rural abraçou a causa e cedendo um espaço para o projeto estrear na Expo Umuarama de 2024.  “Foi incrível. Conseguimos abordar muitas pessoas, fazer atividades, levar alegria e mostrar a importância do tema, porque existe muito tabu”, conta Lorena.

“Foi incrível. Conseguimos abordar muitas pessoas, fazer atividades, levar alegria e mostrar a importância do tema. Porque existe muito tabu”, conta Lorena.

Juntos por uma causa: médica Mariana Gasperin, Madalena Gaiari da SRU e família do empresário no estande da campanha por doação de órgãos na Expo Umuarama – Foto: Danilo Martins/OBemdito

Quase metade das famílias recusa a doação de órgãos

Atualmente, 78 mil brasileiros aguardam por um transplante no Brasil. E o maior obstáculo não é técnico, é humano.

De acordo com dados do Sistema Nacional de Transplantes, 49% das famílias recusam a doação quando consultadas. O principal motivo: não sabiam a vontade do familiar. Quem não deixa claro em vida que quer ser doador deixa a família sem base para decidir. “Uma das grandes dificuldades é o aceite das famílias, principalmente por falta de conhecimento e informação”, explica a Dra. Mariana Gasperin.  

De acordo com a médica, transplante de órgãos no Brasil é um processo legal, seguro e rigorosamente regulamentado. “Cada etapa, do diagnóstico de morte encefálica à distribuição dos órgãos, segue protocolos que garantem transparência e igualdade na fila. E seu impacto vai além do paciente: alcança famílias inteiras, que ganham mais tempo ao lado de quem amam”, diz.

Fale com a sua família

No Brasil, a única forma de garantir que sua vontade seja respeitada é dizê-la em vida à família. Muita gente acredita que precisa registrar a intenção em documento ou carteirinha.

“Quem tem intenção de ser um doador, precisa deixar claro para a família sua vontade em vida. É muito difícil a gente falar sobre morte, mas é importante deixar claro para a família que a gente tem o desejo de ser doador, porque no final a vontade da família vai ser soberana.”

“Seja um doador de órgãos. Converse com sua família e informe a sua vontade. Cada doador pode salvar até oito vidas. Lembre-se: há muitas pessoas com falência terminal de órgãos, e o transplante é a única opção de sobrevivência.”

Edson Roberto Peixoto deixou um nome respeitado, uma corretora, propriedades e uma família unida. Mas o legado que essa família escolheu honrar vai além de tudo isso: transformar uma história de perda em razão para que outros não precisem perder. Para que a vida de outros pacientes, em outras filas, em outros hospitais possa continuar.

Saiba mais sobre a doação de órgãos nos sites do Sistema Estadual de Transplantes do Paraná (clique aqui) ou do Ministério da Saúde (clique aqui).

(Reportagem: Heloiza Vieira/Colaboração OBemdito)

Redação

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