Graça Milanez

Loja de Umuarama mantém vivas as máquinas de escrever há 40 anos

Máquinas de escrever ainda ecoam em Umuarama. O som seco das teclas, o deslizar do carro e o tilintar que anuncia o fim da linha remetem a um tempo que muitos acreditam ter ficado para trás. Por aqui, porém, essas antigas companheiras seguem vivas… e funcionando.

Há quatro décadas a Olimaq mantém acesa essa tradição, oferecendo não só móveis de escritório, mas também um serviço cada vez mais raro: o conserto e a revisão dessas antigas companheiras de trabalho.

O proprietário da loja, Valdemir Benício, 73 anos, conhece bem esse universo. Antes de empreender, ele passou 23 anos como professor de datilografia, experiência que hoje se reflete no cuidado com cada máquina que passa por suas mãos.

Valdemir Benício e João Henrique na oficina da Olimaq: parceria de quatro décadas

“Foram muitos anos ensinando e aprendendo também. A datilografia foi minha escola e minha vida. Foram anos formando gente e criando respeito por esse ofício”, afirma. Ao longo desse período, ele estima ter formado cerca de 4 mil datilógrafos.

O empresário faz questão de dizer que não vê essa trajetória com nostalgia. “Não tenho saudade, porque continuo vivendo isso todos os dias. Pra mim, a máquina de escrever nunca deixou de fazer parte da rotina. Enquanto muita gente acha que ficou no passado, pra mim isso nunca acabou”, enfatiza.

Valdemir Benício diante do gaveteiro cheio de peças de reposição

Conserta-se máquinas de escrever

Logo nos primeiros anos da Olimaq, o movimento era intenso. Valdemir lembra que chegava a consertar entre 20 e 25 máquinas de escrever por dia. As viagens pelas cidades da região eram frequentes e produtivas. “A gente saía para atender e voltava com o carro cheio de máquinas para arrumar”, recorda.

O tempo passou, a tecnologia avançou, e a demanda diminuiu. Hoje, a média é de cerca de 50 máquinas por mês. Ainda assim, o serviço segue firme, sustentado por um público fiel.

Os clientes, segundo o empresário, são pessoas que continuam utilizando a máquina de escrever para tarefas práticas, como preencher recibos e cheques ou datilografar contratos.

“Em muitos casos, são clientes que não têm acesso ao computador ou simplesmente preferem a praticidade do equipamento mecânico”, alega.

Leia também: Entre livros e relíquias: Sebo do Jura encanta clientes em Umuarama.

“Sempre tem jeito”

Nos fundos da loja, a oficina guarda um verdadeiro acervo. Máquinas de escrever e de somar de diferentes modelos se acumulam, formando um cenário que parece atravessar gerações.

É ali que trabalha João Henrique Macedo, 66 anos, que atua com consertos desde 1975. Com olhar experiente e mãos precisas, ele dá nova vida a equipamentos que muitos considerariam irrecuperáveis.

“Sempre tem jeito. A maioria das máquinas que chega aqui volta a funcionar”, garante João, com a segurança de quem domina o ofício. “Posso dizer que 99% saem funcionando”, reforça.

Um dos segredos para esse alto índice de recuperação está no estoque da empresa. Valdemir guarda, com orgulho, um verdadeiro tesouro: um gaveteiro de aço, daqueles tradicionais de sete gavetas, lotado de peças de reposição.

Ali há de tudo: teclas, espaçadores, barras, fitas e componentes difíceis de encontrar no mercado. “Hoje, somos provavelmente a única loja do Paraná que ainda vende peças de máquina de escrever”, afirma.

Enquanto houver máquina para consertar…

Mesmo após 40 anos de história, Valdemir não pensa em parar tão cedo. Pelo contrário: faz planos. “Se depender de mim, fico mais 20 anos nesse ramo”, projeta.

Entre engrenagens, teclas e histórias, ele e João seguem mostrando que, em um mundo cada vez mais digital, ainda há espaço para o som marcante da datilografia e para quem se dedica a mantê-lo vivo.

“É um trabalho que não acabou, só ficou mais raro… Enquanto existir uma máquina precisando voltar a funcionar, estaremos aqui”, promete Valdemir.

== Saiba mais: whatsapp 44 9 9112-8503

Graça Milanez

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