Paraná

A irmã que segurou a dor enquanto o Brasil olhava para a chacina de Icaraíma

Nos dias que sucederam 5 de agosto de 2025, quando as primeiras informações sobre o desaparecimento de quatro homens em Icaraíma começaram a chegar de forma fragmentada, o caso ainda era um enigma. Um quebra-cabeça incompleto, sem contornos definidos, que pouco a pouco revelaria uma engrenagem violenta articulada no interior do Paraná.

Nove meses depois, o que se sabe é perturbador e ainda insuficiente. Nenhum dos principais suspeitos foi preso. E, enquanto o inquérito segue sob sigilo, o tempo passa de forma desigual. Lento para quem espera por justiça, implacável para quem precisa aprender a viver sem respostas.

Foi nesse intervalo, entre o desaparecimento e a descoberta do que de fato aconteceu, que a história de Alesandra Gonçalves de Souza ganhou contornos próprios. Não pelos holofotes, que ela sempre evitou, mas pela maneira como sustentou com firmeza e discrição o peso de uma ausência que ainda ecoa.

Alesandra Gonçalves de Souza e a família almoçam no pesqueiro que pertenceu aos Buscariollo — os mesmos apontados como suspeitos pelo desaparecimento de seu irmão (Foto Arquivo da família)

A família de Icaraíma optou pelo silêncio

Enquanto o caso de Icaraíma ganhava dimensão, com repercussão regional e interesse público crescente, a família Gonçalves de Souza optava pelo silêncio. Um silêncio que não era ausência de voz, mas escolha.

A primeira ruptura veio apenas em setembro, em uma entrevista exclusiva a OBemdito. Até então, havia também o ruído, como a informação equivocada veiculada por um programa policial paulista que chegou a sugerir que Alencar seria o autor dos crimes.

Foi nesse cenário que Alesandra decidiu falar e exclusivamente a OBemdito, o que ocorre até hoje. E, ao falar, não elevou o tom. Ao contrário, o suavizou.

Aos 38 anos, Alesandra não se apresenta como protagonista. Mas é. Foi ela quem sustentou a rotina da família nos meses mais duros. Quem acolheu o pai, Alencar Favoreto de Souza, e ajudou a transformar a espera em algo suportável. Quem evitou confrontos públicos, apostando na confiança.

“Eu não quero ficar na porta da delegacia tendo que cobrar o trabalho de ninguém. Eu acredito no trabalho deles, sempre acreditei desde o início”, disse em entrevista, na última semana.

A frase revela mais do que uma posição. Revela uma postura. Em meio à dor, ela escolheu não tensionar, não alimentar conflitos. Escolheu esperar. “A gente aguarda a resposta da Justiça. Meu pai espera muito. Eu tenho fé. Acredito que a justiça maior vem de Deus.”

Aos poucos a rotina volta, mas a lembrança é permanente

O tempo, para quem perde, não passa. Ele se reorganiza. Alesandra seguiu trabalhando, mudou de cidade, formou-se técnica em enfermagem.

Nos fins de semana, retorna para casa no sítio da família, onde Alencar também residia com a esposa e ajudava o pai nas atividades do campo.

Alencar registra a família reunida na propriedade rural dos Gonçalves de Souza (Foto Arquivo da família)

A presença ainda é necessária, mas já não tem a mesma urgência de antes. O pai, antes viúvo, hoje tem uma companheira. A casa, aos poucos, reaprende a existir.

Mas há marcas que não acompanham esse ritmo. “A vida toca. Toca porque você tem que tocar. Mas dizer que a gente esquece, a gente não esquece.”

O irmão, conta, era presença constante. Apoio. Referência. “Ele era meu braço direito. Tem coisas que eu olho hoje e penso que, se ele estivesse aqui, eu estaria tranquila.”

Alencar descansa em um dia tranquilo na propriedade da família Gonçalves de Souza (Foto Arquivo da família)

Os principais suspeitos, Antônio Buscariollo e Paulo Ricardo Costa Buscariollo, seguem foragidos. A investigação continua sob sigilo.

A dor que nunca acaba

Se o caso de Icaraíma escancarou a brutalidade de um crime organizado em ambiente rural, também revelou uma dimensão menos visível e igualmente profunda, a da permanência da dor.

Para Alesandra, isso não é paralisante. É uma espera sustentada por fé e por disciplina emocional.

“É uma ferida que está ali. De vez em quando ela sangra. A gente vai fazendo um curativo daqui, outro dali e vai entregando tudo na mão de Deus.”

Nove meses depois, o caso segue sem respostas definitivas. Na casa simples do interior, onde ainda se reconhece o trabalho de Alencar em cada detalhe, a porta segue aberta.

Não para o passado. Mas para a possibilidade de justiça. E, sobretudo, para aquilo que Alesandra escolheu preservar desde o início, a dignidade.

O caso dos quatro mortos em Icaraíma

O último registro com vida de Alencar Gonçalves de Souza Giron e dos paulistas Diego Henrique Affonso, Rafael Juliano Marascalchi e Robishley Hirnani de Oliveira remonta à manhã de 5 de agosto, em Icaraíma, cidade às margens do rio Paraná, a cerca de 58 quilômetros de Umuarama.

O que começou como uma cobrança relacionada a um desacordo comercial envolvendo um sítio de cinco alqueires, avaliado em cerca de R$ 750 mil, evoluiu, segundo a Polícia Civil, para uma emboscada.

As investigações apontam que Alencar havia comprado a propriedade por R$ 255 mil à vista, com o restante condicionado a financiamento bancário posteriormente negado. O distrato previa devolução parcelada, mas o atraso nos pagamentos levou à cobrança e ao deslocamento dos três homens de São Paulo até o interior paranaense.

LEIA TAMBÉM: Chacina de Icaraíma completa 9 meses no dia em que Alencar Gonçalves faria 37 anos

No dia seguinte ao primeiro contato com a família Buscariollo, o grupo retornou à propriedade rural. Foram vistos pela última vez após imagens em uma panificadora da cidade, um registro banal que se tornaria, mais tarde, uma das últimas provas de que estavam vivos.

Execução

Laudos divulgados em dezembro indicam que os quatro homens foram executados por volta das 12h30 daquele dia. Sem indícios de tortura, mas com precisão, atingidos por disparos de diferentes calibres, incluindo munições de uso restrito.

A cena, segundo a investigação, sugere a participação de ao menos cinco pessoas.

SAIBA MAIS: Defesa diz estar ‘às cegas’ e famílias com ‘fome de justiça’ no caso das 4 mortes de Icaraíma

A caminhonete Fiat Toro em que estavam só seria localizada mais de um mês depois, enterrada em um bunker subterrâneo, em meio à mata. O local revelou mais do que vestígios do crime e expôs uma rede de estruturas clandestinas, 22 ao todo, utilizadas para ocultação de armas, drogas e veículos.

Os corpos foram encontrados dias depois, a cerca de 500 metros dali, e somente a prisão dos suspeitos poderá realmente esclarecer e definir o caso.

Rudson de Souza

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