O produtor cultural Cláudio (centro) é um dos que lideram o movimento em Umuarama.
As batalhas de rima, popularizadas no Brasil a partir dos anos 2000 em praças e espaços públicos dos grandes centros urbanos, nasceram da essência do hip-hop: dar voz às periferias por meio da música e da poesia improvisada.
Inspiradas por referências internacionais e fortalecidas por coletivos urbanos, essas disputas verbais encontraram terreno fértil em diversas cidades do país e, agora, voltam a ganhar forma também em Umuarama.
De maneira ainda tímida, mas carregada de intenção, jovens admiradores da cultura hip-hop têm se articulado para consolidar o movimento local. À frente dessa retomada está o grupo ‘Batalha dos Ideais’, criado com o objetivo de fomentar encontros, atrair participantes e fortalecer a cena.
Dia e local já foram fixados na agenda: as batalhas de rima em Umuarama acontecem aos sábados à tarde, em um quiosque à margem do Lago Tucuruvi, onde cerca de 20 rapazes se reúnem, entre MCs [que entram na roda para duelar] e espectadores, que acompanham, incentivam e ajudam a manter a energia do encontro.
O produtor e gestor cultural Cláudio Vieira, 26 anos, conhecido nas rodas como Mc Estoico Maquiavélico, é um dos que estão à frente da iniciativa. “Acredito que Umuarama precisa estar presente nesse cenário”, enfatiza o happer.
“Porque a batalha não é só disputa: é arte, é manifestação cultural, é espaço para quem quer rimar e ou simplesmente colaborar para impulsionar o hip-hop por aqui, que já é tão grande em outros lugares”, justifica.
Representando OBemdito, fui conferir o encontro [10ª edição] no sábado, 11/4. O Lago Tucuruvi estava como de costume lindo, expirando sossego, orgulhosamente refletindo o brilho do sol. Foi nesse palco convidativo que a roda se formou. A escolha do espaço parece certeira: um ambiente aberto, acessível e propício para que a rima ecoe e encontre quem queira ouvir.
Vi que a estrutura do grupo ‘Batalha dos Ideais’ é básica: uma caixa de som de baixa potência [bem pequena, mais ou menos 10×15] é, por enquanto, o único recurso disponível. Nesse contexto, a força da voz se torna essencial. “É no timbre firme e na presença que cada participante tem que sustentar seus versos”, avisa Cláudio.
O grupo tem estilo próprio: bonés, camisetas largas, calças com rasgos, correntes, tatuagens e gestos ritmados compõem o visual típico dos MCs e fãs.
E, como toda batalha de rimas, a linguagem é direta, carregada de gírias, referências culturais e críticas sociais, como racismo e desigualdades. “Cada rima revela não só criatividade, mas também vivências, opiniões e posicionamentos”, explica Cláudio.
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“Estendo a mão… Entrego a rima com o coração… Estou em construção… O rap está dentro de mim… Rap é para inspirar… Minha alma é iluminada… Eu faço rap, eu amo rap”… Versos e mais versos preenchiam o silêncio aconchegante da margem do Lago Tucuruvi.
“Umuarama já teve um movimento semelhante no passado, mas que acabou se dissolvendo”, lembra Cláudio. “Agora, nossa proposta é reconstruir a cena, reaproximar o público e dar continuidade aos encontros”, garante.
Entre os planos, está a aquisição de equipamentos que possam ampliar a fala, como uma caixa de som potente e microfone. “Não temos apoio institucional ainda, mas vamos lutar para isso”, avisa o produtor cultural.
Para Cláudio, as batalhas são mais do que entretenimento: elas cumprem um papel social importante. “O movimento cria oportunidades de convivência, de expressão e de pertencimento para os jovens”, defende.
Ele também salienta que Umuarama tem habilidosos músicos e poetas nesse universo. “Temos o vice-campeão regional”, diz, orgulhoso. Ele é João Victor Borges, 20 anos, o Jottave, que conta com cerca de 30 prêmios no currículo.
Assim, no improviso das palavras [que exige rapidez de raciocínio], um querendo vencer o outro nos argumentos [muitas vezes com provocações e insultos, mas sempre com intenção lúdica], surgem reflexões e conexões de ideias e, claro, ideais.
“Umuarama, aos poucos, volta a abrir espaço para a rima — e para tudo o que ela representa”, arremata o MC Estoico Maquiavélico, que na coordenação do grupo conta com a parceria do Jottave e de outros colegas: Matheus Melo (Mandela), Lucas Rueles (Kinder) e Bryan Gabriel.
== Acompanhe o grupo pelo https://www.instagram.com/batalha_dos_ideais/
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