Graça Milanez

Do aço descartado à lâmina pronta, cuteleiro transforma sucata em facas robustas

É quase verdade dizer que a cutelaria existe desde que o mundo é mundo… Não, melhor dizer: desde o início da civilização. A arte de transformar aço em facas, canivetes e outras lâminas fascinou e continua fascinando muita gente. É um fascínio, digamos, atemporal.

Os que encontram deleite em confeccionar, de forma artesanal, ferramentas de corte não são poucos no Brasil, que até dispõe de uma entidade para representar a classe. A Sociedade Brasileira dos Cuteleiros, fundada em 2001, é a voz que garante que a cutelaria está em alta.

Trazendo o foco para a região de Umuarama, há sinais de que, sim, forjar está presente na rotina de alguns entusiasmados, que fazem questão de manter essa tradição milenar por aqui.

Um deles mora em Mariluz. Reginaldo Soares da Rocha, 40 anos, começou na cutelaria por curiosidade ou por paixão… Não sabe dizer quem chegou primeiro, mas sabe bem o quão importante é carregar um canivete amolado ou uma faca de qualidade na cintura para determinadas tarefas do dia a dia na fazenda, onde é tratorista.

Talvez por isso decidiu aprender a fazer as próprias peças. “Na lida a gente aprende que uma boa lâmina faz diferença, então resolvi fazer as minhas do jeito que eu confio… Olha, eu até comecei por curiosidade, mas hoje vejo que é a paixão que me mantém firme nisso aqui.”

Precisão e rapidez: Reginaldo e sua máquina de corte a plasma

E assim nasceu a RR Cutelaria

Para imergir nesse universo, Reginaldo se dedicou bastante em testes e estudos. Até que em 2022 se sentiu pronto para criar a RR Cutelaria, marca sob a qual hoje produz facas artesanais robustas, na oficina que montou no quintal de sua casa.

OBemdito foi conhecer. De cara percebemos que o ambiente simples tem função complexa: a de reaproveitar peças de aço descartadas.

Lixo que é luxo: Reginaldo diante da pilha de sucata que transforma em facas

Empilhados do lado de fora da oficina estão discos de arado, molas de carro, capas de rolamento de caminhão, sabres de motosserra e réguas de plataforma de colheitadeira, entre outros itens que compra em ferro-velho ou ganha de amigos. “Eles sabem que eu aproveito e me dão.”

Reginaldo se orgulha das facas [de vários modelos, tamanhos e espessuras] que produz, mas não deixa de destacar o fato de estar reciclando um material “jogado fora”.

“Olha pra isso: quanta coisa boa tem aqui que muita gente nem dá valor… Pra mim, é matéria-prima. Eu pego o que ia para o lixo e transformo em uma peça útil, que vai durar muitos anos.”

Pronta-entrega: Cabos e bainhas feitas também à mão fazem parte do portfólio

Rústico, mas com brilho próprio

Fala apressada e empolgada – o tempo todo mostrou-se hiperativo –, Reginaldo conta que o processo é todo manual e envolve corte, forja, lixamento e afiação, até chegar a lâminas de aparência rústica e estrutura corpulenta, porém com um fio [gume]impressionante. 

Algumas peças de sua coleção, que inclui cutelo, machadinha e outros tipos, chamam atenção pelo peso. “Esse cutelo pesa cerca de 1,3 quilo”, aponta para a peça que emana uma beleza singular, resultado do encontro entre a robustez do aço bruto e o brilho revelado no acabamento, numa harmonia que salta aos olhos.

Do arado à machadinha: reciclagem de aço faz parte do negócio

Acompanhado do filho Ruan Pablo, 19 anos, seu assistente nas vendas, Reginaldo fez questão de nos mostrar o passo a passo da transformação: “Isso aqui, ó, é uma mola de Uno… Vou fazer uma faca para você ver”, disse, pedindo minha atenção. “Olha, rapidinho eu corto… tenho o modelo.”

E rapidinho cortou mesmo [cerca de três minutos], usando uma máquina de corte a plasma, único equipamento moderno que faz parte do seu aparato de trabalho. Dali, leva a peça já em formato de faca para a lixadeira, onde retira as arestas, o que faz com bastante habilidade.

Reginaldo e o filho Ruan: Um se encarregada produção, outro das vendas

No tom vermelho alaranjado

Depois, é hora de levá-la para o fogo; o carvão é o combustível. Para atingir alta temperatura [até 800ºC] e manter as brasas no tom vermelho alaranjado, ideal para moldar o metal, improvisou: ao invés do fole [aquela bolsa rudimentar de couro usada por ferreiros para atiçar o fogo], adaptou um secador de cabelo. “Tive essa ideia e deu certo”, comentou, com olhar de quem buscava aprovação.

Sim, elogiamos a invenção, pela eficiência indiscutível. E a conversa continuava acelerada, enquanto a peça ardia na pequena fornalha. Reginaldo ia acrescentando informações sobre o seu amor pela cutelaria, atividade das horas vagas e dos finais de semana.

“Eu não consigo ficar parado… sempre tenho que fazer alguma coisa; aqui eu penso a peça, desenho do meu jeito, corto, lixo, forjo… é uma atividade que mexe com o corpo e com a cabeça, por isso me encontrei nela.”

Paciência e precisão

Tratamento térmico, resfriamento, tensão, liga, dureza, resistência, magnitude, têmpera eram palavras recorrentes na conversa. Reginaldo demonstrava ter noção dos conceitos físico-químicos que norteiam a cutelaria, que tem o aço como o protagonista [mistura de ferro com carbono].

“É um trabalho que dá muita satisfação, mas não é leve… exige força, paciência e disposição; a gente lida com fogo, aço bruto, muito esforço manual”, destaca o artesão.

Mas nem tudo é rudimentar. Tem pelo menos uma fase que exige delicadeza: a do acabamento que vai resultar no fio da lâmina, feito na lixadeira. O momento exige paciência e o intrépido Reginaldo prova que tem, que consegue se concentrar; sua precisão é admirável.

“Nessa hora não dá pra ter pressa: o fio pede mão leve e atenção em cada detalhe, qualquer descuido muda tudo.” E pra fechar o projeto com requinte, capricha também nos cabos e nas bainhas.

Leia também: Aposentado e esposa garantem renda extra e ‘boa terapia’ com facas artesanais.

Internet e feira de domingo

A curiosidade abriu caminho e ele segue, sem pressa, mas bem interessado em comercializar seus produtos. Para isso tem a ajuda do filho Ruan, que cuida da comunicação; ele fotografa, faz vídeos e coordena a loja no Instagram.

“Toda essa parte é com ele”, diz Reginaldo, que também já consolidou outro canal de venda: a feira de domingo, em Umuarama. Com boa aceitação do público, ele afirma estar contente com os resultados.

Para ele, a atividade une utilidade, reaproveitamento de materiais e interesse pessoal — elementos que transformaram uma curiosidade em negócio. “Eu junto o útil ao necessário: reciclo material descartado, faço algo que eu gosto e ainda tiro minha renda disso. Bom demais, não é?!”.

== Para encomendar – Whatsapp 44 9 9811-6850

Fotos: Graça Milanez/OBemdito

Graça Milanez

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