Paraná

Tecnologia de correção auditiva muda vidas de moradores do Noroeste do Paraná

A vida da professora Edilaine Montanhani começou a mudar quando o silêncio passou a ocupar espaços que antes eram preenchidos por vozes, risadas e aulas. Moradora de Altônia, no Noroeste do Paraná, ela nasceu ouvindo normalmente, mas começou a perder a audição aos 20 anos. Primeiro vieram os aparelhos auditivos; depois, a dificuldade crescente para compreender palavras, principalmente em ambientes barulhentos. Até que, com o avanço da perda auditiva, ela precisou deixar a sala de aula e se afastar da convivência social.

“Cheguei a um momento em que não ouvia nada, mesmo com o aparelho. Me afastei do trabalho, dos amigos, não tinha mais vida”, relembra. A virada começou na Unidade Básica de Saúde, onde recebeu orientação e encaminhamento para especialistas. Após exames e avaliações, veio a confirmação: ela poderia realizar o implante coclear. Em cerca de seis meses, o procedimento foi realizado. “É um processo lindo, de reaprender a ouvir”, conta. Desde então, Edilaine segue em acompanhamento fonoaudiológico e reforça que todo o tratamento foi feito gratuitamente pelo SUS.

Irmãos de Sarandi

A cerca de 90 quilômetros dali, em Sarandi, outra família também vive a transformação proporcionada pela tecnologia. Os irmãos Emilly Caroline Guimarães Rodrigues, hoje com 10 anos, e Heitor Donato Guimarães Rodrigues, de 4, nasceram com deficiência auditiva bilateral severa. A suspeita surgiu quando Emilly apresentou atraso na fala. Os exames confirmaram neuropatia auditiva, e os implantes bilaterais foram realizados quando ela tinha pouco mais de dois anos. No dia em que completou três anos, o dispositivo foi ativado.

Com Heitor, o diagnóstico veio ainda mais cedo, aos quatro meses de vida, e as cirurgias ocorreram logo após o primeiro aniversário. Hoje, ambos mantêm acompanhamento médico e sessões semanais de fonoaudiologia. Para a mãe, Cibele Guimarães, o processo foi desafiador, mas transformador. “Entregar um filho para uma cirurgia é muito difícil, mas hoje sinto gratidão por saber que foi a melhor decisão que tomei”, afirma.

Líder no ranking

O Paraná se tornou referência nacional em implantes cocleares. Em oito anos, o Estado saiu das últimas posições para liderar o ranking brasileiro de procedimentos por milhão de habitantes. O índice passou de 2,1 implantes por milhão em 2016 para 18,0 atualmente, colocando o Paraná na primeira posição do país.

Entre 2019 e 2025, foram realizados 651 implantes na rede pública estadual. Os procedimentos, assim como todo o tratamento e reabilitação, são oferecidos gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde, com investimentos superiores a R$ 41,7 milhões nesse período. Segundo a Secretaria de Estado da Saúde, a ampliação faz parte da Linha de Atenção à Saúde da Pessoa com Deficiência, que busca prevenir agravos e promover reabilitação funcional.

Conhecido como “ouvido biônico”, o implante coclear é um dispositivo eletrônico que estimula diretamente o nervo auditivo. Diferente dos aparelhos convencionais, que apenas amplificam o som, a tecnologia permite que pessoas com perdas auditivas severas voltem a perceber sons e desenvolver a compreensão da fala. O sistema possui uma parte interna, implantada cirurgicamente na cóclea, e uma externa, composta por um processador que capta os sons do ambiente.

A cirurgia é considerada de baixo risco clínico e pode ser realizada em bebês a partir dos seis meses até idosos acima de 90 anos, desde que haja condições clínicas. Após o procedimento, o implante é ativado cerca de 30 dias depois, iniciando um período essencial de adaptação e reabilitação com acompanhamento médico e fonoaudiológico.

O acesso ao tratamento começa pela Unidade Básica de Saúde, porta de entrada para avaliação e encaminhamento. Especialistas alertam que ainda há desconhecimento sobre a tecnologia, e muitas pessoas que poderiam se beneficiar não sabem que o procedimento está disponível pelo SUS. Mesmo assim, a procura tem aumentado: há oito anos eram cerca de 30 implantes por ano; hoje, esse número é realizado a cada dois meses.

Na rede privada, o custo pode variar de R$ 65 mil a R$ 170 mil. No sistema público, o tratamento segue gratuito — e, para pacientes como Edilaine, Emilly e Heitor, representa a chance de reconstruir a relação com o mundo dos sons.

(OBemdito e AEN)

Luiz Fernando

Luiz Fernando é estudante de Jornalismo na Universidade Estadual de Londrina e trabalha há três anos no portal OBemdito auxiliando na cobertura de notícias em Umuarama e região.

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