Umuarama

Júri em Umuarama: testemunhas falam sobre relacionamento conturbado entre réu e vítima

Teve sequência na tarde desta quarta-feira (11) o Tribunal do Júri que analisa o caso de feminicídio que ocorreu em Umuarama em 28 de outubro de 2022. Foram ouvidas seis testemunhas arroladas pela acusação e a defesa. Algumas delas abordaram o relacionamento conturbado entre o réu e a vítima.

O réu é o ex-policial penal Carlos Adriano Botelho de Assis, de 46 anos, acusado de matar a ex-companheira Vanessa dos Santos da Cunha, de 28 anos. O crime ocorreu na casa em que o autor residia, na avenida Olinda.

Segundo denúncia do Ministério Público do Paraná (MPPR), a vítima foi morta com mais de 50 perfurações.

Havia previsão de que o júri se estendesse por até três dias. No entanto, com o desenrolar dos trabalhos na tarde desta quarta-feira, o julgamento pode terminar antecipadamente, provavelmente na quinta-feira (12).

Antes das 17h todas as testemunhas já tinham sido inquiridas. Ao todo, na tarde desta quarta, seis testemunhas depuseram, sendo dois policiais, a mãe da vítima, uma ex-namorada e dois vizinhos do réu.

Relacionamento conturbado

Um dos depoimentos mais importantes para a compreensão do relacionamento que a vítima e o réu tinham foi de Sandra Márcia Pedroso. Ela era vizinha de Carlos Adriano na época dos fatos e disse que não tinha amizade com o réu, mas que ele sempre foi muito educado quando se viam.

Sandra explicou que frequentemente via Vanessa fazendo escândalos na frente da casa do vizinho. De acordo com o testemunho, a mulher pedia para entrar no imóvel, chegava a subir em uma árvore, tentava pular o muro ou a grade do portão e gritava com o morador.

A vizinha relatou que esse tipo de situação acontecia com frequência. Além disso, falou que Vanessa chegou a invadir a casa de outro vizinho e danificou um veículo que estava parado na frente da casa do ex-namorado.

A testemunha também relatou que no dia dos fatos percebeu que havia viaturas da Polícia Militar (PM) e uma ambulância do Samu em frente a casa de Carlos Adriano. Ela disse que viu o vizinho sentado em uma cadeira na varanda, percebeu que ele estava sujo de sangue e ataduras. Mesmo assim, Sandra afirmou que o réu aparentava estar muito calmo. Só depois soube sobre os fatos.

A Promotoria inquiriu a testemunha se ela sabia sobre o término do relacionamento entre vítima e réu. Sandra afirmou que soube desse fato em seu trabalho, em um clube da cidade, que o acusado frequentava e onde tinha amigos. “Alguns dias antes eu ouvi no clube que Carlos terminou porque Vanessa não era uma pessoa boa. Se a pessoa vai na porta da casa do outro fazer escândalo, ameaçar, tem alguma coisa errada”, disse.

Cena do crime

Outra testemunha desta tarde foi o policial militar Pedro Marques dos Santos, que integrava a primeira equipe a chegar ao local do crime. Ele relembrou que a central da PM recebeu um telefonema que seria do próprio autor solicitando a presença policial. Isso ocorreu por volta das 8h30 do dia 28 de outubro de 2022. Ainda por telefone, o autor informou que a vítima estava trancada em um dos quartos da casa.

O PM informou que a equipe chegou ao endereço e Carlos Adriano foi abrir a porta e o portão. Ele estava machucado. O morador passou a relatar ao policial que, por volta das 4h30 começou a ouvir barulhos no quintal, como se alguém estivesse mexendo no portão ou procurando entrar. Vanessa teria tentado acalmá-lo. Porém, a vítima teria pegado uma faca. Carlos Adriano disse que conseguiu tomar a faca da ex-namorada e a trancou no quarto.

Enquanto o policial Pedro conversava com o morador, outro integrante da equipe da PM foi até o quarto e se deparou com a cena do crime e a vítima já sem vida. Os policias acionaram o Samu, que constatou a morte de Vanessa e prestou atendimento a Carlos Adriano, que apresentava alguns ferimentos.

Esta mesma equipe policial apreendeu o celular do autor e também acompanhou o Samu, que o encaminhou para o Hospital Nossa Senhora Aparecida. Posteriormente os policias conduziram Carlos Adriano para a Delegacia e o entregaram à autoridade policial.

A defesa indagou a testemunha se as lesões no réu e a situação do imóvel indicavam que houve briga entre os dois e tentativa de se defender. O policial, no entanto, comentou que não recordava de detalhes tão específicos.

Testemunho da mãe da vítima

A segunda testemunha da tarde foi a mãe da vítima, a senhora Rosana Carvalho dos Santos, que pediu para ser ouvida sem a presença do acusado. Ela disse que reside na cidade de Pérola e não tinha muita convivência com a filha. A mãe afirmou que Vanessa morava com o pai e tinha mais convivência com a irmã Patrícia (residente em Umuarama).

A senhora Rosana informou que ficou sabendo do crime através de uma vizinha, que foi até sua casa para mostrar a notícia no celular.

Ela também testemunhou que Patrícia (outra filha) contava que a irmã apanhava muito de Carlos Adriano e que chegava a correr para pedir ajuda aos vizinhos. No entanto, Vanessa não o denunciava por gostar de Carlos Adriano e por ter medo. A princípio, a filha também comentou que a irmã chegou a ser hospitalizada em decorrência das agressões.

“Ela apanhava muito, ele judiava dela. Ela corria para a casa dos vizinhos pedir ajuda. Ficou internada várias vezes, mas ela não denunciava ele, porque tinha medo e gostava dele”, disse. Por fim, afirmou: “Eu quero a justiça para ele”.

A defesa optou por não inquirir a testemunha.

Outras testemunhas do júri em Umuarama

As outras testemunhas deste primeiro dia de júri foram um policial que atuou no caso, o filho do dono do mercado que fica perto da residência do réu e uma ex-namorada.

Jaqueline, a ex-companheira, residia em Cruzeiro do Oeste na época dos fatos. Ela disse que se relacionou por algum tempo com Carlos Adriano e que eles haviam terminado cerca de dois meses antes da ocorrência do feminicídio.

Questionada sobre como era o relacionamento entre eles, Jaqueline afirmou que nunca tiveram problemas. “Comigo ele nunca ergueu a voz para falar mais alto, ia na minha casa, conviveu com meus filhos. Nunca tivemos problemas”, disse. Ela alegou que o término ocorreu porque duas ex-companheiras de Carlos Adriano ficavam incomodando e, inclusive, uma dessas mulheres a teria perseguido.

Após o término dos testemunhos, ocorreu a leitura dos laudos da necropsia. A próxima etapa do júri é o depoimento do réu.

Jaqueline Mocellin

Olá, eu sou Jaqueline Mocellin e trabalho no site OBemdito desde dezembro de 2016. Atuo como jornalista e editora. Sou formada em jornalismo pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), pós-graduada em Comunicação, Educação e Artes pela Unipar/Cascavel e atualmente curso Direito na UniAlfa Faculdade. Estou sempre em busca da emoção que o jornalismo pode proporcionar. Sou apaixonada pela minha profissão, levo muito a sério a ética de trabalho e a correta apuração dos fatos.

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