A médica enfrentou um ambiente historicamente dominado por homens para construir sua trajetória na cirurgia - Foto: Arquivo pessoal
No Dia Internacional da Mulher, histórias de mulheres inspiradoras ganham espaço. E a trajetória da médica umuaramense, Mariana Gasperin é exatamente assim. Porém permeada pelas dificuldades de ocupar uma função que acredita-se não ser coisa de mulher.
Cirurgiã especializada em transplante de fígado, mestre em cirurgia e professora do curso de medicina em Umuarama, ela construiu uma das carreiras mais exigentes da medicina brasileira. Fez três residências no Hospital das Clínicas da USP, em Ribeirão Preto: cirurgia geral, cirurgia digestiva e foi a primeira residente de transplante de sua especialidade no hospital. Mais tarde, tornou-se a primeira gastrocirurgiã assistente de todo o departamento de cirurgia digestiva — um cargo que, antes dela, havia sido ocupado apenas por homens.
Foi também dentro desse ambiente que a diferença entre homens e mulheres ficou clara. Na residência, eram 16 alunos, apenas duas mulheres. O ambiente majoritariamente masculino e as regras, nem sempre explícitas, também. “Eu ouvi de um professor, na frente de todos, que o centro cirúrgico não era lugar para mulher”, conta Mariana. “Cheguei a ouvir que mulher nem deveria ser médica.”
A história de Mariana faz parte de uma transformação silenciosa na medicina brasileira. Pela primeira vez na história, as mulheres são maioria entre os médicos do país — representam 50,9% dos profissionais em atividade, segundo o relatório Demografia Médica no Brasil 2025, do Conselhos Federal de Medicina. Os números mostram o avanço. A trajetória dela mostra o que esse avanço cobra um preço: fazer muito mais para provar ser capaz e nem sempre receber reconhecimento por isso.
Tudo mudou quando a filha, Ana Clara nasceu, em 2019. Na rotina exaustiva de trabalho entre transplante, gestão hospitalar, supervisão de residentes, cirurgias e reuniões não cabia a pausa e o tempo que uma criança precisa. “Quando voltei da licença maternidade, eu tomei uma das decisões mais difíceis da minha vida: pedi para sair daquilo que era a realização do meu sonho profissional. Escolhi a minha filha, a minha família.”, conta.
Depois de ser mãe, a médica reconhece que ficou claro que, para uma mulher, independente do lugar que ela ocupa, as coisas são diferentes. “Eu entendi que não é justo cobrar da mulher exatamente o mesmo que se cobra do homem. A sociedade cobra diferente. A família cobra diferente. O filho sente saudade de uma forma diferente.”
E a medicina cobra diferente também. Dentro das residências, diz Mariana, a mulher em idade reprodutiva é frequentemente vista como uma bomba relógio, como se a qualquer momento fosse engravidar. “Filho acaba sendo visto como um problema”, ela diz. E então completa, sem hesitar: “Mas filho é uma bênção.”
A médica frequentemente é questionada se arrepende-se de ter deixado a promissora carreira como professora de medicina na USP para trás. “Eu não vi minha filha dar o primeiro sorriso, o primeiro dente nascer, nem os primeiros passos. Com a mente que tenho hoje, talvez eu tivesse deixado muitas coisas antes”, ela reflete.
Professora de medicina, Mariana ensina o que aprendeu, não somente na técnica cirúrgica. “Eu olho para as minhas alunas e desejo que elas encontrem um mercado de trabalho mais acolhedor do que o que eu encontrei. Que elas não precisem fazer mais do que os outros para serem reconhecidas pelo que valem.”
Quando pensa no futuro de Ana Clara, Mariana não projeta uma carreira. Projeta uma condição. “Eu quero que Ana Clara tenha liberdade para escolher o que ela quiser ser. Trabalhar, estudar, ser dona de casa — qualquer que seja a escolha, que ela seja respeitada por ela. Que ela não seja nem mais nem menos por ser mulher.”
Reportagem: Heloiza Vieira de Oliveira
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