Cotidiano

Corpo de Miratzi é sepultado a 100m do homem que a matou, prometendo uma bicicleta

Sob forte comoção e gritos de desespero da família, foi sepultado no fim da noite desta segunda-feira (16) o corpo da menina venezuelana Miratzi Kaireles Perez Mejía, de 8 anos, vítima do crime brutal em São Manoel do Paraná. Após a liberação pelo Instituto Médico-Legal (IML) de Paranavaí, o traslado seguiu diretamente para o Cemitério Municipal da cidade, onde familiares, colegas de escola e moradores já aguardavam em silêncio para a despedida.

O cortejo chegou às 23h20. O caixão, lacrado, foi levado até o local do sepultamento sob olhares consternados e poucas palavras. Houve um breve momento de despedida, que durou cerca de 20 minutos. Foi uma cerimônia simples. As pessoas se abraçavam e tentavam consolar a mãe de Miratzi, a avó, a tia e outros parentes mais próximos.

Era visível o clima de tristeza. Ao mesmo tempo em que moradores demonstravam compaixão e solidariedade à família da menina, também manifestavam indignação diante das atrocidades cometidas pelo homem que matou a menina, Daniel Luiz Ferrari, 33 anos, morto ao reagir à ação policial. A pequena São Manoel do Paraná, de pouco mais de 2.100 habitantes, viu-se tomada por um sentimento coletivo de luto.

Despedida à menina Miratzi, em São Manoel do Paraná: momento de dor (FOTO/COLABORAÇÃO: ALAN PARA OBEMDITO/PROIBIDA REPRODUÇÃO)

Assassino e vítimas enterrados a poucos metros de distância

O corpo de Daniel Luiz Ferrari foi sepultado no início da manhã de domingo (15), no mesmo cemitério. A distância entre os dois túmulos é inferior a 100 metros. A proximidade ocorre por conta do tamanho reduzido do cemitério. Foi tomado o cuidado para os jazigos não ficarem na mesma via, mas há contato visual entre as duas covas de tijolos e cimento.

“Isso (proximidade entre túmulos) me incomoda muito. É como se aquele cara ainda estivesse por perto, fazendo mal à menina e a outras pessoas”, disse um morador. “O Daniel tomou o caminho errado e se tornou uma pessoa difícil, ao se envolver com gente errada. Nós crescemos juntos, mas chegou um momento que ele foi para o lado que eu jamais iria”, acrescentou.  

O terreno onde Miratzi foi enterrada foi cedido pela Prefeitura, que também arcou com as despesas de traslado, urna funerária e demais custos relacionados ao funeral. O prefeito Hugo Lazinho lamentou a perda da menina venezuelana, que frequentava a rede municipal de ensino. “Nós não estamos acostumados com esse tipo de violência. Desse jeito, não”.

Laudo do IML

Os voluntários que encontraram o corpo da menina Miratzi relataram que chegaram ao local, à beira de um rio na área conhecida como Farinheira, orientados pelo mau odor de decomposição humana. Segundo eles, o corpo da criança apresentava características de que ela havia sido morta há vários dias, ao que tudo indica, minutos depois que foi levada pelo criminoso.

Também havia sinais que levam a crer em morte causada por estrangulamento. O laudo do IML deve confirmar ou rebater essa suspeita. O documento também vai responder uma pergunta que agiganta a dor, se Daniel violentou sexualmente a menina antes de dar fim à vida dela.

Por que Daniel matou Miratzi

A pergunta que não encontra resposta: por que Daniel matou Miratzi? A mãe da menina disse que tinha iniciado um relacionamento com ele havia no máximo dois meses e que não se trata de algo sério. O rapaz mal conhecia a criança. De quem Daniel queria se vingar? Talvez dele mesmo, alimentando seus traumas inconscientes, que se confirmavam em desejos e repetições (equivocadas).

Criança pensava que iria ganhar uma bicicleta

O crime que mergulhou São Manoel do Paraná em luto teve início na quinta-feira (12). Daniel Ferrari descumpriu uma medida protetiva e invadiu a residência da ex-companheira, grávida de sete meses, de outro homem.

Ele pulou o muro do imóvel e desferiu diversos golpes de faca contra a mulher, que foi socorrida em estado grave e levada para cirurgia em Cianorte. Apesar da violência do ataque, não houve necessidade de antecipação do parto.

Após a agressão, Daniel procurou a atual namorada, mãe de Miratzi, afirmando que queria entregar uma bicicleta à criança. Convenceu-a a ir até a casa dele com a filha. Já no local, pediu que a mulher saísse para comprar cigarros. Quando ela retornou, encontrou a casa vazia. Daniel havia fugido com a menina com o carro do pai dele.

O automóvel foi localizado abandonado na manhã de sexta-feira (13), em uma estrada rural do município. A partir daí, uma força-tarefa envolvendo as Civil e Militar, incluindo Tigre (Tático Integrado de Grupos de Repressão Especial), Corpo de Bombeiros e moradores voluntários percorreu áreas de mata e propriedades rurais durante três dias consecutivos.

No domingo (15), Daniel foi encontrado escondido em uma área de vegetação. Conforme a Polícia Militar, ele reagiu à abordagem armado com uma faca e foi morto a tiros. Poucas horas depois, voluntários localizaram o corpo de Miratzi em meio à mata, desfecho que confirmou o pior e encerrou de maneira trágica as buscas que mobilizaram toda a região.

Leonardo Revesso

Graduado em Direito pela Unipar, mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e especializando em Neurociência do Consumo pela ESPM. Tutor da Olívia, da Ludi e da Mila. Está no jornalismo há 27 anos (iniciou aos 15). No OBemdito escreve sobre política e consumo.

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