Umuarama

“Enquanto temos fé, ele está vivo”, diz irmã de desaparecido em entrevista exclusiva a OBemdito

Há um mês, a rotina da família Gonçalves de Souza foi interrompida por um vazio silencioso e doloroso. Na propriedade rural onde o talento do marceneiro Alencar Gonçalves de Souza, de 36 anos, ainda está impresso em cada porteira e móvel, a esperança é o esteio que impede a vida de parar. Pela primeira vez, a família abre as portas de sua casa e do seu coração para um veículo de comunicação para falar sobre a angústia de viver sem respostas.

“É difícil continuar a vida, mas ela não pode parar. Diariamente, a todo instante, eu penso no meu irmão e a tônica da família é: ‘enquanto não temos notícias, ele está vivo’. E assim, a cada minuto, estamos esperando a sua chegada”, afirma Alesandra Gonçalves de Souza, 37 anos, irmã de Alencar.

Ela recebeu a reportagem de OBemdito com carinho. Alesandra estava lavando o carro, que é seu, mas que ela amorosamente emprestava ao irmão que está desaparecido.

O patriarca, Alencar Favoreto de Souza, de 68 anos, completou aniversário no último dia 17. Entretando, a comemoração da data foi ofuscada pela dor da ausência do filho. Com a simplicidade e a dignidade do homem do interior, ele conduziu a reportagem até as cadeiras na varanda.

A resiliência que parece ofuscar o sofrimento

Apesar da dureza do assunto, a conversa com o senhor Alencar fluiu com bastante naturalidade. E isso permitiu até alguns (poucos) momentos de riso, em um claro testemunho da resiliência de quem está acostumado a lutar pela vida.

“Agradeço a todos que vieram até aqui. A casa ficou cheia de pessoas trazendo alento, afeto e muita oração”, contou Alesandra. Ela se referia à novena feita na propriedade da família e a tantas outras orações que estão acontecendo em Icaraíma.

Com olhos que carregam o cansaço de um mês de incertezas, o patriarca resume o desejo de todos. “É muito triste. O que eu quero é meu filho de volta, chegando”.

Família Gonçalves de Souza se confraterniza na mesa 02 do pesqueiro pertencente à Família Costa Buscariollo, principal suspeita do desaparecimento de AlencarFoto: Arquivo da família – ESTÁ PROIBIDA A REPRODUÇÃO DAS IMAGENS CONTIDAS NESTA REPORTAGEM

A família explica que Alencar era independente por natureza, um traço cultivado desde os 13 anos, quando foi para o campo com o pai. Por isso, não estranham que não tenha contado sobre os planos daquele dia 5 de agosto.

“Alencar foi ensinado a ser independente. Foi meu pai que ensinou tudo a ele, até os ofícios do campo”, disse a irmã, que também não sabia sobre os planos com os paulistas. Sobre os homens de São Paulo – os cobradores – ela lembra um detalhe singelo: “Eles passaram aqui. E acharam as galinhas criadas por meu pai lindas. Então, separamos um casal para dar para eles na volta”. No entanto, essa volta não aconteceu.

A companheira e sua dor dilacerante

O clima de conversa serena foi quebrado pela chegada de Patrícia Viana Giron, de 30 anos, esposa de Alencar. Apesar de morar na mesma propriedade, por esses dias turbulentos ela busca conforto afetivo na casa dos pais.

Ao chegar, acompanhada por eles, sua emoção transbordou. “É uma dor dilacerante, uma espera sem fim. Noites sem dormir, insônia, pesadelos”, desabafou, chorando e lembrando principalmente que não vai poder comemorar seu aniversário no próximo domingo.

Patrícia revelou que, no auge do tumulto do desaparecimento, passou dias e dias sentada em frente à casa do casal. E é nessa varanda que está a mesa de madeira que foi o último trabalho artesanal do marido. “Eu paro e penso: como está meu marido? Ele é um homem tão cuidadoso com a higiene, gostava de banho, de se barbear… E fico pensando como ele está”, disse, com a voz embargada pela emoção.

Apesar da angústia, da agonia e do peito apertado, a família prioriza a esperança, a fé e a crença no retorno do filho querido. Eles mantêm uma fé inabalável no trabalho da polícia e seguem cada passo da investigação. Enquanto isso, aguardam na casa no interior do Paraná, que se mantém de portas abertas, não para a dor, mas para a esperança de que a qualquer momento Alencar chegará.

Alencar Gonçalves de Souza, de 36 anos, descansa na companhia dos cães na propriedade da família, em IcaraímaFoto: Arquivo da família – ESTÁ PROIBIDA A REPRODUÇÃO DAS IMAGENS CONTIDAS NESTA REPORTAGEM

O caso

Alencar e os paulistas Robishley Hirnani de Oliveira, de 53 anos, Rafael Juliano Marascauti, de 43 anos, e Diego Henrique Afonso, de 39 anos, desapareceram há um mês, em Icaraíma. Desde então, o caso permanece como um grande mistério.

A principal linha de investigação da Polícia Civil segue sendo homicídio, com foco em uma dívida de R$ 250 mil referente a um negócio de terras. Receber o valor foi o que motivou Alencar a contratar os paulistas que, de acordo com a investigação, são conhecidos por fazer cobranças.

Os principais suspeitos do desaparecimento do quarteto são Antonio “Tonhão” Buscariollo, de 66 anos, e seu filho Paulo Ricardo, de 22 anos. A Justiça decretou a prisão preventiva dos dois, porém, eles estão foragidos.

Nos dias que sucederam o desaparecimento, uma grande força-tarefa fez uma verdadeira varredura em Icaraíma. Aeronaves, cães farejadores e sonares, além de diversas equipes policiais e dos bombeiros, realizaram buscas por terra, água e ar.

A falta de um desfecho

Neste momento da investigação, a Polícia Civil mantém as buscas de forma mais tímida e se debruça na análise de imagens, testemunhos e outros itens que podem ser provas. Qualquer indício pode ser o ponto-chave para indicar o paradeiro dos desaparecidos ou dos suspeitos. Contudo, até o momento nenhum deles, nenhum corpo, nenhum veículo e nenhuma evidência conclusiva foi encontrada.

Enquanto as investigações prosseguem em silêncio, duas realidades coexistem: a da polícia, que trabalha com a hipótese de um crime brutal, e a da família Gonçalves, que se agarra à fé e à esperança como um ato de resistência contra o desfecho mais temido. O caso é, acima de tudo, um testemunho de como uma comunidade convive com a incerteza e de como o amor de uma família se recusa a aceitar a falta de respostas.

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Rudson de Souza

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